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Um redondo vocábulo

Sarah Adamopoulos © 2012–2018

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Propaganda

Jornalismo e propaganda

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«Massacre», eis como adjectiva um amigo meu o que todo o santo dia passa nas tevês portuguesas, públicas umas e privadas outras, todas, dir-se-ía, incapazes de realizar a sua própria interpretação jornalística da actualidade noticiosa, ou seja, as suas escolhas editoriais, partindo de um universo que hoje é global, o que claramente não facilita a vida, mas é a vida – e também mais uma razão substantiva para agir doutra forma em termos jornalísticos, sobretudo num contexto europeu que pede uma constante reflexão mediatizada.

No centro do «massacre» está naturalmente a actividade governativa, ou melhor escrevendo, a representação oficial dela, sob a forma de conferências de imprensa, declarações dos governantes ao país, etc. Ora, sendo a representação oficial da actividade governativa o que o próprio Governo diz sobre o que fez ou pretende vir a fazer, assistimos a uma multiplicação dos canais por onde passa aquilo que se designa por propaganda – isto é, a propagação das ideias, opiniões, doutrinas que presidem à actividade governativa. Uma multiplicação de canais de difusão mediática de um determinado pensamento a que contudo não corresponde uma oferta diferenciada, constituindo portanto uma mera reprodução, várias imagens iguais de uma mesma coisa.

É claro que depois as tevês chamam os seus comentadores, de direita uns e de esquerda outros, a quem é pedido que façam a leitura dessas imagens. Dessa forma, o «massacre» estende-se muito para além dos directos televisivos, no decurso desses longos minutos, amiúde várias horas, em que os comentadores dissecam os temas levados para o espaço público pelos governantes. E o que aqui escrevo aplica-se em larga medida à imprensa, e também à rádio, fazendo do actual jornalismo um espelho único cuja imagem prevalecente é essa realidade paralela (sem correspondência com a realidade da maioria das pessoas) em que se movem os governantes e demais burocratas profissionais.

Mas a essência do jornalismo é outra coisa, e é evidente que essa outra coisa não pode ser assegurada por estagiários baratos e impreparados que ninguém tem tempo nem condições objectivas para formar, comentadores em interesse próprio (por vezes a soldo zero), e jornalistas e editores sem tempo para pensar: escolher, mostrar, denunciar, comparar, investigar, estudar, reportar, andar na rua, ir até ao fim dela como anuncia a TSF, compreender que sociedade integram e têm o dever de espelhar, de questionar, de construir, também.

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Quantos são os que andam às compras?

“Afinal, vai-se a ver e os portugueses estão cheios de dinheiro”, anunciam por estes dias natalícios os jornais e as tevês, reproduzindo acriticamente a história habitual: chega o Natal e aparece o dinheiro, que sempre existe, apesar da choraminguice.  Mas jornalismo seria saber quantas contas foram movimentadas nesses levantamentos e transacções com Multibanco durante o período, sendo certo que a riqueza está ainda pior distribuída do que no ano passado.

Por que não se cala o Santos dos supermercados?

Apesar de estar retirado, Alexandre Soares dos Santos não se cala, e não se cala porque não há jornalismo, mas apenas e quase só propaganda, a que as tevês e os jornais se sujeitam com abjecto servilismo e ausência de perspectiva – crítica, cívica, histórica. As tevês e os jornais bem sabem que normalmente as declarações avulsas de Soares dos Santos não dizem nada que não saibamos já, mas também sabem que colhem bem junto da massa acéfala de emigrados para um passado próximo dentro de si. Por isso aceitam ser porta-vozes dessas declarações do Santos dos supermercados, por isso aceitam fazê-lo sem mais trabalho nem contraditório. De tanto em tanto tempo, cumprindo um calendário de fantasma obstinado em infernizar-nos pela retórica decadente, esse imperador do retalho merceeiro português, de impostos pagos na Holanda, chega-se à frente qual senador da Nação para mandar as suas postas de pescada deficientemente refrigeradas: pede consensos impossíveis, ao mesmo tempo que exorta os portugueses a que escolham de uma vez por todas entre o socialismo e o capitalismo (como se eles, que são uns miseráveis, pudessem escolher o capitalismo), insurge-se contra os processos democráticos (fá-lo com cautelas discursivas, mas sempre vai dizendo que o que faz falta aos portugueses é “uma democracia musculada” e que “não podemos estar constantemente a mudar quando há eleições”) e avisa que vem aí a guerra, como se o que está a acontecer-nos não fosse já a guerra, ele que é um especialista dela. Por que não se cala? Porque quando chama os jornalistas eles lá vão, porque lá vão mesmo quando não são chamados, porque o jornalismo se recusa à sua função na sociedade e dá espaço a alguém que não tem nada para dizer, coisa alguma de relevante com que contribuir, a não ser as balelas e lugares-comuns habituais que de modo algum merecem o espaço público que lhes é oferecido.

Diálogo democrático [dramolete para um actor]

Não, de modo nenhum, nós não somos contra as manifestações. Numa sociedade democrática, as manifestações são uma coisa natural, e saudável. A liberdade de expressão, o direito à indignação, e até o direito à resistência, formulação que agora está muito na moda, são conquistas inalienáveis num Estado democrático como é o nosso. Mas há uma distinção a fazer entre isso e uma outra concepção que também decorre da Democracia, e que é o Estado de Direito. Ora, num Estado de Direito há regras que devem ser respeitadas. A Constituição? Ela não está a ajudar-nos, eis tudo. Como diz? Não respeitamos a Lei Fundamental do Estado de Direito? Vamos lá ver: a Constituição é neste momento um elemento de bloqueio à governação. É preciso perceber que quem faz essa acusação está a fazer tábua rasa da circunstância de excepção em que nos encontramos, e nessa medida seria desejável a revisão, no fundo a actualização da Constituição. Contudo, e como é sabido, essa operação requer um entendimento partidário mais alargado, que infelizmente não tem sido possível. A palavra operação é infeliz? Há mais coisas infelizes na vida, percebeu o que eu queria dizer, não percebeu? Muito bem, é isso que importa. Diga? Já cá faltava o ideologismo. Não, não há nenhumas razões ideológicas escondidas por detrás das palavras que escolho usar. A realidade é que a Constituição está neste momento a manietar gravemente a nossa capacidade de solvência e, consequentemente, a credibilidade do País junto dos credores. O que é o País? Sim, o País é as pessoas, claro que sim, estou convencido de que todos pensamos assim, que os países são as suas pessoas, mas veja: quando não há pão na mesa, parece-me evidente que são necessárias medidas excepcionais. Nesse sentido, seria realmente importante uma revisão da Lei Fundamental, que permitisse levar por diante um conjunto de reformas no Estado. Como diz? Não, o carácter excepcional do momento não é impeditivo de nada, muito pelo contrário, julgo que é essa excepcionalidade que justamente serve de força motriz para a mudança. Por tempos normais não se mexe em nada, e realmente vemos no actual momento a oportunidade de muita coisa. Nesse sentido, a revisão da Constituição é naturalmente um grande desafio que se nos coloca no horizonte. Mas lá está: precisamos de fazê-lo com alguma base de sustentação, e por isso apelamos: ajudem-nos a agarrar essa oportunidade. É preciso que os cidadãos entendam isto. Tudo faremos para que esta mensagem seja compreendida, e iremos até às últimas consequências nesse combate. Autoritarismo? Não, essa é uma acusação em que de modo algum nos revejo. Repressão das manifestações? Que exagero! Essa palavra já não faz parte do nosso vocabulário, felizmente há muito tempo. Deus nos livre disso – toda a gente sabe que isso é chão que já deu uvas, hoje já não há disso, tal como não há censura, e outras coisas que não cabem numa Democracia, sim, podem vir até ao Parlamento, venham, a vossa presença junto à Casa da Democracia honra-nos, sim, venham numerosos, dá-nos especial prazer ter-vos lá fora enquanto votamos as leis cujo objectivo comum é, em primeira como em última análise, defender as gerações vindouras dos erros do passado, defendendo também, pela mesma ocasião, aqueles que são seguramente os vossos interesses, pois qual é o pai que gosta de deixar dívidas ao filho? Algum pai gosta de deixar ao filho um país arruinado? Nenhum, não é? Tenho a certeza de que estamos de acordo nisto. Claro que há muito quem queira fazer-vos crer no contrário, e até quem sugira que não temos sentido patriótico, o que de resto considero uma acusação insultuosa, na linha de muitas mais, repare que até há quem nos acuse de estar a destruir o País, quem chame ao Governo uma central de negócios, quem nos censure por estarmos a arranjar dinheiro, através de algumas privatizações, para pagar a nossa dívida. A verdade é que no imediato não há outra forma de honrar os nossos compromissos. Mas é preciso fazer mais, e isso requer reformas. Não, não estamos a vender a nossa soberania. A nossa soberania não está à venda, era o que mais faltava. Sabemos bem o que estamos a fazer, e não serão essas acusações a demover-nos, estamos, como no primeiro dia, empenhados em criar condições de futuro, para todos os que queiram um futuro, naturalmente, bem sabemos que há muito quem não queira um futuro, há muito imobilismo na sociedade, muita desresponsabilização, muito medo de pensar o futuro, mas não nós. O presente o que é para nós? Se o presente existe? Pois naturalmente que sim, ele serve, justamente, para lançar as novas bases para o futuro. Não, é claro que não estamos a esquecer-nos das gerações presentes. E não, as nossas leis não são contra elas, como é evidente, apesar do que alguns pensam. Não é o que parece? Claro, nós compreendemos que tenham essa percepção errada, há muita desinformação, sabem lá esses desinformadores quais são em bom rigor os nossos planos, eles são unicamente movidos pelo desejo de poder, e quando se quer o poder a toda a força e a qualquer custo é natural que não se veja mais nada, e que se tenha dificuldade em ver mais à frente. Não os ouçam, a vossa situação a eles se deve, aos seus erros passados, à sua falta de perspectiva, quando eram governantes. Os nossos erros? Bem, também teremos cometido alguns, é natural, ninguém está a salvo disso, afinal somos todos humanos, e governar um país é como gerir uma grande empresa: faz-se fazendo, aprendendo com os erros, e tentando não repeti-los, é o que temos procurado fazer. Um país não é uma empresa? Olhe que a diferença não é assim tão grande nos nossos dias, e a verdade é que os princípios que servem na gestão de uma grande empresa aplicam-se, com as devidas diferenças, com os naturais ajustamentos, à governação de um país. Governar um povo e gerir um Estado não são a mesma coisa? Bem, quando o problema maior de um país é a sua dívida, é necessária uma gestão maximizada do Estado, no sentido de um programa reformista, que contribua para que essa situação deficitária possa ser estancada, e revertida, e não se reproduza jamais. Por isso mesmo não abrimos mão do nosso projecto de governação. Sim, apesar das manifestações, e da dureza de algumas medidas. No começo desta caminhada, escolhemos não avançar passo a passo. Definimos um objectivo e avançámos para ele com decisão. Essa é, para nós, a única forma de levar o País a bom porto: com decisão. Mentimos aos eleitores? Não, isso não é verdade. Talvez não tenhamos sabido gerir da melhor forma as expectativas, o que é muito diferente. Aconteceu que herdámos uma situação muito mais difícil do que inicialmente imaginámos. Dizemos uma coisa e fazemos outra? Não estou a perceber. Dizemos Democracia e fazemos Ditadura? Quem diz isso? Ora, isso são poesias, palavras que andam por aí, nas chamadas espumas dos dias, nas cristas das ondas em que a Oposição cavalga. O quê? É evidente que vos representamos – pois se foi o povo que votou em nós! Foram poucos e a maioria já se arrependeu há muito tempo? A ser assim, temos pena. A legitimidade democrática está do nosso lado. Não está? Olhe que está, olhe que está. Ouça: nós não andamos aqui para ver andar os outros. Abraçámos esta missão e enquanto ela não estiver concluída não baixaremos os braços. Dizemos Crescimento e fazemos Pobreza? Ouça: nós não desejamos mal a nenhum cidadão, a nenhum, percebe? Duma coisa podem todos os cidadãos ter a certeza: não abandonamos este barco. Porquê? Ora, porquê. Toda a gente sabe porquê, não percebo a necessidade dessa pergunta de novo, pois, tal como temos repetidamente afirmado, não permitiremos que os sacrifícios já feitos sejam lançados borda fora. Isso seria uma política de terra queimada. Não, não contem connosco para esse tipo de populismos. Pela nossa parte apenas podemos assegurar uma coisa: não inflectiremos caminho. Sabíamos bem ao que vínhamos, quando chegámos ao poder, e não são agora umas manifestações que vão demover-nos. Contávamos com certos repúdios. Como diz? Ora, esse tão badalado consenso alargado na sociedade não tem aderência à realidade. Basta aliás ver as sondagens para verificar que é assim como digo. As sondagens valem o que valem? Ora, isso é um argumento estafado, aliás usado amiúde pelos nossos opositores, como forma de tentar colher junto de alguma insatisfação. Mas sabe, a insatisfação é natural, não podemos agradar a todos. Como? Não agradamos a ninguém? Em que estudo se baseia para fazer tal afirmação? Diga? É claro que nós conhecemos a realidade em que vive a maioria do nosso povo. Como? Olhe que sim, olhe que sim. Ouça: sabemos bem que algumas medidas são duras mas a realidade é que não existem alternativas. A realidade é uma questão subjectiva? Isso é o que dizem os nossos detractores, mas não passam de difamações. Com essa maledicência podemos nós bem, por amor de Deus, deixem-nos trabalhar, que é para isso que cá estamos. Não, não abandonamos. Se fizéssemos depender o nosso programa dos pedidos de demissão não teríamos conseguido nada. Não, isso seria demasiado fácil. Não entregamos assim os pontos. Não entregaremos o País à Oposição que foi responsável pelo estado calamitoso em que o encontrámos. Não, não estamos cansados das manifestações contra as nossas políticas, encaramo-las com naturalidade, em Democracia o direito à manifestação é uma conquista que não questionamos, já o disse. As manifestações são uma prova eloquente da vitalidade do sistema democrático, mas mesmo que estivéssemos cansados, não era agora que íamos desistir, não é? Sim, bem sabemos que muitos o desejam, mas por nós bem podem esperar sentados, pois não viramos costas ao que desde o início encarámos, creio que com justeza, como uma missão histórica. Diga? Não percebi. É claro que está a resultar, basta ver os indicadores económicos. Não são suficientes? Voltamos a falar daqui a uns tempos, está bem? Tenho a certeza de que a conversa será outra. Em política, as coisas demoram tempo a tornar-se visíveis. A retoma económica é já um dado adquirido. Ninguém acredita nisso? A realidade encarregar-se-á de demonstrá-lo, a todos esses cépticos que olham com constante pessimismo para os nossos bons resultados. Se não vemos o sofrimento? É claro que sim, é claro que todos os que foram afectados de forma especial, e que hoje passam por momentos difíceis, não poderiam deixar-nos indiferentes. Somos sensíveis às suas dificuldades. Não parece? Como dizia o Doutor Salazar, em política tudo o que parece é. A generalidade está em sofrimento? Isso não é verdade. Não, não posso concordar com essa visão das coisas. Temos aliás feito tudo o que está ao nosso alcance para proteger os mais vulneráveis. Mas bem sabemos que não são eles quem se queixa. Diálogo? Em Democracia é preciso convergência, consensos, um permanente diálogo com as forças em presença. Quando se tem um objectivo colectivo a atingir, ele deve ser alcançado com a maior unanimidade possível. Essa unanimidade não existe? Olhe que sim, olhe que existe, e estamos gratos a este bom povo, a este melhor povo do Mundo, pelo caminho sereno que temos percorrido juntos. Como? Acha que isso faz algum sentido? Diga? Nunca disse isso, como é evidente. Esse tipo de culto da personalidade não tem nada que ver comigo. Jamais acharia normal que se referissem a mim como Querido Líder, estamos num país livre, numa economia de mercado, no Ocidente civilizado, tenham paciência, há limites para o disparate. Outra vez as manifestações? Ouça: desde o início que temos explicado e repetido os nossos objectivos com a maior clareza, por isso é natural que a cooperação se faça. Cada vez mais resistem? Não vejo as coisas assim. Apesar de algumas pequenas vitórias em sentido contrário ao que seria desejável para o País, vitórias de algumas corporações profissionais que pretendem impedir-nos de agir, parece-me que a generalidade dos cidadãos coopera – eles sabem que não existem alternativas, e por isso mesmo têm cooperado, o que nos enche de confiança, pois vemos nessa cooperação a prova da nossa própria capacidade para mobilizar vontades, que me perdoem pela imodéstia. Não concorda? Bem, cada um tem direito à sua opinião, e a expressá-la, naturalmente. Assim acontece em Democracia, no Ocidente civilizado. Pela minha parte é assim que vejo: temos as pessoas connosco. Foi nelas que pensámos quando começámos, é nelas que pensamos hoje, é o futuro delas que está em causa. No que depender de nós, estamos aqui para elas, pois as pessoas são a própria razão de ser da acção governativa. É para elas que trabalhamos. Querem manifestar-se? É natural, estamos a operar uma verdadeira revolução, é normal que haja resistências, movimentos contra-revolucionários chamêmos-lhes assim. As manifestações são ocorrências naturais, que fazem parte do diálogo democrático, não tenho dúvidas de que todos concordamos que é assim. Ou não será isto verdade? (um tempo) Mais alguma pergunta?

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