Pesquisar

Um redondo vocábulo

Sarah Adamopoulos © 2012–2019

Etiqueta

Portugal

Jornalismo literário: Ferreira Fernandes

Ferreira-Fernandes
(c) Direitos reservados

Sei coisas sobre 1977 em Angola, o chamado “estalinismo negro”, os excessos a ceifar a vida dos divergentes, aquele soldado a marchar como se tivesse corda para sempre, caminhando se preciso sobre os cadáveres, obstinado em marchar para sempre, em nome de uma bandeira cujos valores mais virtuosos desonrou.

Sei estas coisas porque o jornalismo me tem posto Angola no caminho. A sua História atravessa-se constantemente na minha própria, chega a ser intrigante para alguém como eu, que não tenho uma história pessoal com África, que venho de demasiado a Norte para saber o Sul e que me disperso (e encanto) por tantos outros interesses e lugares humanos.

Para saber o Sul como por exemplo Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de memórias coloniais, pedaço literário que considero excepcional, antes e para além do seu evidente valor documental: uma obra literária (isto é, feita com a verdade da arte chamada literatura) que é também um testemunho. Sobre Moçambique, no caso.

Ou para saber o Sul como Ferreira Fernandes, reduto de luz sobre a memória recente de quando Angola ainda era Portugal, ali a iluminar a redacção do Diário de Notícias, para que não nos sejam amputadas as lembranças que não podem ser esquecidas. Incluindo as que lembram tempos mais próximos já, de quando Angola já não era Portugal. Pois o nome van Dunem transporta uma memória, não há como rasurá-la: o passado reemerge mesmo que não queiramos.

Felizmente, ainda há jornalismo emocionante que pode ser feito sem sair da redacção: crónicas literárias à melhor “moda antiga”, para dizer jornalismo literário, ou seja, prosa duplamente escrita com a verdade, e ainda por cima, sorte a nossa, com as palavras mais justas, colocadas nos lugares mais certos.

A crónica de hoje de Ferreira Fernandes, a não perder, aqui.

Anúncios

Portugal 1975-2015: 40 anos de silêncio

acusar

Ficaram com os ódios e as raivas ali a arderem-lhes. Os ódios muito bem guardados para grandes vinganças vindouras que o destino pudesse favorecer. Escondidos nos sótãos fechados à chave dos seus espíritos, entrar neles dava cabo até mesmo de quem mal sabia por que razões, e embora ainda ardentes, haviam ali sido escondidos. As raivas debaixo do tapete, de onde contudo por vezes saíam, como cabeças de hidra que nenhum hércules pisava para não debelar numa só cabeça que fosse o que fôra guardado com tanta estima há mais de 40 anos. Ovos disso haviam eclodido aos milhares.

Nasceram novas pessoas e foram-lhes ensinados esses ódios e raivas. Quando atingiam uma certa idade, alguém mais velho levava-as lá acima ao sótão e, apontando para o que estava tapado com grandes panos que ninguém levantara desde que lá haviam sido postos, diziam

Estão ali.

Mostrado o esconderijo, apressavam-se a descer, procurando fugir das recordações que logo começavam a invadir-lhes os pensamentos. Dos tapetes escondendo os mais pequenos sentimentos torcidos, limitavam-se a informar

Não se varre ali debaixo nem se aspira.

As novas pessoas assentiam e não se falava nunca mais no assunto.

As novas pessoas não compreendiam muita coisa sobre o que se havia passado nesse outro tempo, como não compreende muita coisa sobre o passado recente quem não viveu em dias anteriores à sua própria existência. Sem surpresa, as novas pessoas tratavam os ódios e as raivas com o excesso de quem não os gerara, e por isso não os sofrera. Tudo na forma que os ódios e as raivas tomavam nas suas bocas era desproporcionado, apenas tendo interesse para estudiosos das transferências.

No lado oposto do patamar, havia um outro tapete, no acesso a uma outra casa, no acesso a um outro sótão. Eram o tapete e o sótão do vizinho, sobre quem um dia, se o destino o permitisse, se lançariam enfim os ódios e raivas do lado direito.

Gerado por tanto desejo, esse dia chegou, e as novas pessoas cavalgaram cheias de raiva e de ódio em direcção à casa do vizinho. Bateram à porta como se fossem rebentar com ela, e quando finalmente o vizinho a abriu, deparou-se com aquele exército de velhos ressentimentos e acusações anacrónicas.

Apesar de ser também ele uma nova pessoa, nascida depois dos acontecimentos sobre os quais nunca mais ninguém falara (e que por essa razão o tempo transformara num monstro), o vizinho foi sumariamente agredido com estranhas sentenças.

Administrador do condomínio só serás por cima do meu cadáver!

Ouviu-se então o som de alguém a falar no sótão da casa agora invadida por espectros. Era o avô do vizinho, a lutar com os seus próprios fantasmas, no sótão como debaixo de um temporal, fazendo oposição às fortes rajadas e bátegas com um capacete e um elmo que tinha trazido da URSS.
[originalmente publicado no blog Aventar]

África, Portugal

canstock9638392

Esta tarde, em Lisboa, na Rua Augusta dos turistas de pé descalço da Europa, mas também dos brasileiros e dos angolanos cheios de grana. Africanos a dançar como loucos uma zumba qualquer que mobiliza centenas de pessoas reunidas em torno de uns rapazes possuídos por um frenesi ancestral, distante e no entanto ali, à mão de semear da alegria, à distância do desejo dela.

Os descendentes do Império ali na Rua Augusta, na Lisboa mulata, a dançar para os europeus, para os brasileiros, para os angolanos, a dançar para fazer uns cobres, para ganhar a vida. Dançam uns com os outros e depois com o público, e a batucada enche de alegria toda aquela gente com falta dela, mesmo quando há dinheiro para consumir nas lojas da Rua Augusta. Dançam assim e todos os outros artistas da rua desaparecem: os sul-americanos das flautas dos Andes tocam em play-back para ninguém, um homem-estátua imobiliza-se rigorosamente para ninguém, pois todos caminham dançando em direcção aos blacks, e à alegria superlativa e contagiante dos seus corpos possessos.

E penso, enquanto sinto o meu corpo a querer dançar, levado pelo ritmo e pela comunhão, que o Portugal africano é eterno.

Crónica do Mundial [Portugal/Alemanha]

Ponho o lenço com a bandeira nacional que comprei no chinês em 2004 e vou ser portuguesa com os portugueses, sofrer com eles por causa de um jogo de futebol, ser uma igual, apesar do olhar deles pousado na minha excentricidade de mulher amalucada naqueles preparos, a minha portugalidade por um fio, a minha estrangeirice toda à mostra, que as mulheres verdadeiramente portuguesas da minha idade não são bem assim, nem vão sozinhas ver futebol para os bares a meio da tarde. Peço uma mine da marca Sagres pois parece-me ser mais portuguesa. Sento-me na obscuridade, quero lá saber da  luz da tarde, e preparo-me para ter a cabeça quente. Lá fora na rua não há vivalma, a semana ainda agora começou e já parece no fim.

Ponho o lenço, bebo a mine, como tremoços, enquanto 50 e tal mil pessoas numa arena no Brasil se transformam em selvagens, ali à minha frente, no écran gigante do Sérgio. Estou em Roma a beber uma Sagres e a comer tremoços enquanto os bárbaros rosnam. Um homem chamado Mueller (ou talvez seja Müller) marca três golos, dois sem glória, só sorte macaca e um árbitro subjectivo. Outro homem, um Hummels ubíquo, desmultiplica-se nesses todos do seu nome plural e faz o resto. Quatro golos. Já não quero mais nenhuma mine e até me apetece tirar o lenço. Talvez tenha dado azar, sabe-se lá. Saio para a luz do fim da tarde que parece ter ficado suspensa, e é outra vez Segunda, apesar dos homens desolados com quem me cruzo na rua, a semana ainda mal começada e eles já tão tristes.

Geração-rasca.2

Volto às praxes, para falar da nova «geração-rasca» que os que se submetem às praxes – ou lá o que aquilo é – parecem constituir hoje. Tantos anos passados sobre o epíteto de Vicente Jorge Silva que na altura chocou tanta gente (os que não queriam ser rascas, os pais deles, e também os que não gostaram de ver assim tratada toda uma geração de jovens portugueses), a sociedade em peso volta agora a apontar o dedo aos mais novos para lhes dizer que eles não prestam.

Mas a verdade é que nem todos comem e calam, como talvez alguns gostassem, e que há mais novos que sabem perfeitamente quem são: os filhos e netos de outros, espelhos deles portanto, onde vejo tudo o que está debaixo do tapete denso de múltiplas camadas que é a sociedade portuguesa que não limpa a casa da história do século XX, cheia de pó e de fantasmas, e entre eles o fantasma-mor da miséria, um tipo horroroso e anacrónico, repressor e autoritário, paternalista e insuportável, e como se não bastasse, pronto para fazer os compromissos que forem precisos com o comércio de tudo e o materialismo absurdo que ainda domina o mundo dos homens.

Mas esses que não comem e calam sabem muitas coisas, e talvez a mais importante seja mesmo aquela que revela um sistema de ensino obsoleto, bafiento e desligado das suas aspirações, um sistema que eles bem sabem falido, e que não tem nada, ou muito pouco, para lhes dar (apesar do dinheiro das propinas que lhes tira, e às suas famílias). Basta observar o mal-estar da maioria, a revolta que calam numa mimese do silêncio constitutivo dos portugueses que são, e claro, aquilo em que estão transformadas as escolas, incluindo as faculdades.

Praxes e relações de poder

Relações de poder, eis o que melhor resume e define as praxes académicas. Quem praxa já foi praxado, quem é praxado quer vir a praxar. Um caloiro sujeita-se às praxes para poder sujeitar outros mais tarde. Apenas isso explica que tantos estudantes (dizem-me que cada vez mais) encarem com naturalidade as praxes. Os seis jovens estudantes universitários que morreram no Meco há semanas entraram na zona de rebentação de uma praia perigosa a sonhar com a superação de uma prova iniciática que lhes conferiria mais tarde um poder: o de submeter outros, o de sujeitá-los a um poder discricionário cuja sobrevivência na nossa sociedade demonstra a que ponto a barbárie (disfarçada de boa tradição) prevalece sobre a civilização. Uma boa compilação de notícias sobre esta tragédia aqui.

A palavra solidariedade

As contas do Governo para os novos cálculos das pensões da Segurança Social. E também um desmentido de Pedro Mota Soares: o Complemento Solidário para Idosos não acabou, só foi cortado de forma ignóbil, só isso.

Jornalismo e propaganda

agenda_mediatica_nacional

«Massacre», eis como adjectiva um amigo meu o que todo o santo dia passa nas tevês portuguesas, públicas umas e privadas outras, todas, dir-se-ía, incapazes de realizar a sua própria interpretação jornalística da actualidade noticiosa, ou seja, as suas escolhas editoriais, partindo de um universo que hoje é global, o que claramente não facilita a vida, mas é a vida – e também mais uma razão substantiva para agir doutra forma em termos jornalísticos, sobretudo num contexto europeu que pede uma constante reflexão mediatizada.

No centro do «massacre» está naturalmente a actividade governativa, ou melhor escrevendo, a representação oficial dela, sob a forma de conferências de imprensa, declarações dos governantes ao país, etc. Ora, sendo a representação oficial da actividade governativa o que o próprio Governo diz sobre o que fez ou pretende vir a fazer, assistimos a uma multiplicação dos canais por onde passa aquilo que se designa por propaganda – isto é, a propagação das ideias, opiniões, doutrinas que presidem à actividade governativa. Uma multiplicação de canais de difusão mediática de um determinado pensamento a que contudo não corresponde uma oferta diferenciada, constituindo portanto uma mera reprodução, várias imagens iguais de uma mesma coisa.

É claro que depois as tevês chamam os seus comentadores, de direita uns e de esquerda outros, a quem é pedido que façam a leitura dessas imagens. Dessa forma, o «massacre» estende-se muito para além dos directos televisivos, no decurso desses longos minutos, amiúde várias horas, em que os comentadores dissecam os temas levados para o espaço público pelos governantes. E o que aqui escrevo aplica-se em larga medida à imprensa, e também à rádio, fazendo do actual jornalismo um espelho único cuja imagem prevalecente é essa realidade paralela (sem correspondência com a realidade da maioria das pessoas) em que se movem os governantes e demais burocratas profissionais.

Mas a essência do jornalismo é outra coisa, e é evidente que essa outra coisa não pode ser assegurada por estagiários baratos e impreparados que ninguém tem tempo nem condições objectivas para formar, comentadores em interesse próprio (por vezes a soldo zero), e jornalistas e editores sem tempo para pensar: escolher, mostrar, denunciar, comparar, investigar, estudar, reportar, andar na rua, ir até ao fim dela como anuncia a TSF, compreender que sociedade integram e têm o dever de espelhar, de questionar, de construir, também.

Fratres

2013 terá sido um ano muito difícil em Portugal, a partir de aqui, no chão frio sem ângulo para o futuro, viver, ser, será necessariamente construir, inevitavelmente acreditar – ah, essa palavra vaga cheia de promessas -, mesmo se acabrunhadamente, os olhos embaciados pelos vapores dos vagões, vagões, vagões anacrónicos que ininterruptamente teimo em ver, para exasperação dos que caminham transversos e avessos à História, onde «tudo é [naturalmente] «oblíquo e nada se conforma à rectidão»*), aqui no meu país de que não consigo ser decentemente, aqui na minha Europa que não reconheço minha (não era nada disto, pois não?), aqui no mundo com vista para a desolação, nesta Língua de onde vejo o naufrágio de tantos. Mas a dias de fechar este ano miserável, no dia em que uma vez mais se anuncia o nascimento de Jesus, amigos telefonam-me, dizem-me que estou no coração deles, digo-lhes que também estão no meu, queridos amigos cristãos para quem o Natal é o dia de dizer que não estamos sós.

 

* – W. Shakespeare, Timon of Athens

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑