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Um redondo vocábulo

Sarah Adamopoulos © 2012–2018

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jornalismo

Um desejo para 2016: Jornalismo

 

Li há dias um texto dshifte Alexandra Lucas Coelho (jornalista e escritora cujo trabalho muito considero) sobre a mais recente crise no jornal Público e fiquei com a sensação de que Lucas Coelho ainda não tinha verdadeiramente pensado nos problemas com que se confronta o jornalismo. Não, Alexandra, não creio que o jornalismo do futuro (considerado no seu todo, e não particularizando) venha a financiar-se com publicidade digital, ou através de crowdfunding. A filantropia de fundações endinheiradas poderá dar uma ajuda, mas não será por aí, creio.  É que o problema de fundo (o modelo de negócio, para o qual já há soluções, faço notar, e com interesse do ponto de vista da independência editorial, tema que te é tão caro a ti, Alexandra, como a mim própria) não vai desaparecer por via da filantropia que porventura venha a assegurar a sobrevivência do jornal Público. (continuar a ler)

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Um novo Jornalismo de Língua portuguesa

redacção

Sinto que devo explicar-me sobre o que tenho escrito em favor de uma mudança no jornalismo que possa acompanhar a inevitável massificação do uso dos suportes digitais. Apesar dos estudos que dão o suporte papel como ainda sobrevivente (e até mesmo com futuro, em termos gerais e não apenas de nicho, o que me parece completamente absurdo), como por exemplo este, patrocinado pelo Regulador ERC (cuja amostra integra vasta percentagem de pessoas mais velhas, 1/4 do total com mais de 65 anos), interessa-me sobretudo prospectivar. Em tempos de mudança, e de uma mudança que será sem dúvida rápida, outra coisa não faria sentido.

1. Quando referi, nos textos sobre Jornalismo, o velho jornalismo, quero com isso designar não forçosamente os jornalistas mais velhos mas as velhas cabeças: todos os que não fizeram verdadeiramente a actualização que o advento da era digital e a Globalização exigem Isto é, todos os que encaram a Internet apenas como um novo suporte, transpondo para o online os modos de fazer jornalismo que usavam para o papel. Continue reading “Um novo Jornalismo de Língua portuguesa”

O fim do velho jornalismo português

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(c) Valter Vinagre | Posto de trabalho

O jornalismo português, tal como o conhecemos, acabou. O que ainda resta dele dá por estes dias os que serão os últimos suspiros. Infelizmente, muitos jornalistas – e entre eles muitos já formados no paradigma digital -, foram já ou vão proximamente ser afastados do jornalismo, o que é especialmente revoltante, atendendo à mais comum capacitação que os elementos das gerações mais novas têm para o uso das tecnologias da Globalização.

Nas últimas semanas, evidenciando a total ausência de independência e isenção desse jornalismo, agora eloquentemente “esmagado” pelo advento de uma nova situação política nacional que lhe é adversa, várias notícias deram conta de despedimentos colectivos e programas de rescisão de contratos.

Pretende-se nalgum casos prosseguir os projectos originais, e noutros lançar novos. Com muito menos jornalistas, pagando-lhes cada vez menos e limitando-se os projectos, tanto quanto se pode perceber, a reproduzir na Internet os modos de fazer jornalismo usados para o suporte papel pelo velho jornalismo português.

A esse jornalismo anacrónico, agora sob a forma de projectos online, acrescentar-se-ão valências de entretenimento, e também agregadores de notícias, o que constitui, em si mesma, fraca diferenciação relativamente ao que já existe actualmente na Rede e nas redes dela – como são os casos do Facebook e do Twitter, imbatíveis tanto a entreter como a chegar em primeiro lugar.

Daqui a algum tempo, esmorecidos os investidores que financiarão a sobrevivência dos últimos super-quadros e jornalistas do já moribundo jornalismo português, despedir-se-ão mais jornalistas e dar-se-ão explicações muito questionáveis sobre as razões desses fracassos.

A não ser que se perceba, espera-se mais cedo que tarde, que existe já não apenas um novo modelo de negócio para o jornalismo, como também novos modelos de jornalismo para o jornalismo da Globalização. Só essa dupla condição permitirá a sobrevivência dos jornalistas portugueses no mercado do jornalismo de Língua portuguesa.

Newshold: liturgia antes do abate

30 de Novembro de 2015. Num plenário da empresa de Comunicação Social Newshold, proprietária dos jornais Sol e i, anuncia-se oficialmente o despedimento de 2/3 do pessoal. A tarefa é entregue a Mário Ramires, administrador-delegado e antigo jornalista. A seu expresso pedido, o plenário é gravado, e depois, também a seu pedido, o ficheiro áudio dessa gravação é disponibilizado online.

Atente-se no tom extremamente paternalista, autoritário, quase marcial, do orador sem escrúpulos. E no final os jornalistas (e demais funcionários, presume-se) batem palmas. Levados por uma retórica de estranhas qualidades, ouvem o inominável e no final … aplaudem. Mesmo tendo-lhes sido dito que 2/3 vão ser mesmo despedidos, aplaudem. Mesmo tendo concordado (aparentemente incapazes de confrontar o administrador-delegado com o enunciado inenarrável, talvez procurando evitar ser piegas…) em assinar um documento que dispensa a Newshold de apresentação de uma caução/garantia sobre créditos a haver, aplaudem.

Aplaudem, assim, com investimento pessoal grandemente incompreensível, um projecto de uma empresa em processo de descapitalização que, segundo anunciado por Ramires, apenas poderá dar trabalho a 1/3 deles, e sobre o qual nada sabem – apenas que a sua viabilização depende da sua boa vontade: prescindindo do direito legal de indemnização por antiguidade e oferecendo parte do valor dos futuros ordenados (entre outras cedências referidas pelo administrador).

Dizer também, já agora, que há 7 anos, quando os accionistas da Newshold investiram dinheiro naquele jornalismo, já não fazia qualquer sentido financiar projectos em suporte papel e no modelo de negócio sustentado na publicidade. E no entanto houve investidores. O que é que isto nos diz sobre a independência do jornalismo entretanto praticado? Um caso a requerer investigação. Por várias razões.

Adenda: um texto de leitura fundamental aqui.

Saída de emergência para o jornalismo: a subscrição paga

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Sabemos que o modelo de negócio que sustentou o jornalismo no século XX já se extinguiu, para dar lugar a algo de profundamente destruidor do jornalismo: o chamado “jornalismo do cidadão”, que, a existir, transformaria em jornalistas todos os cidadãos, incluídos os mais empreendedores que viram nessa terra-de-ninguém (que deriva de uma confusão deliberada entre jornalismo e comunicação) uma oportunidade de negócio.

Atendendo a que o mercado publicitário investe sobretudo em conteúdos populares, exigindo milhares de views para colocar na Rede os seus diferentes produtos de grande consumo, isso significa, na escala global em que nos inserimos, que uma publicação com verdadeiro interesse jornalístico sofre à partida uma desvalorização sem relação com o seu valor real. Por essa razão também, o velho modelo de negócio não é compatível com as necessidades implicadas pela produção de informação de qualidade e independente dos interesses económicos e outros.

Sucedendo ao modelo assente na publicidade, vemos emergir (ainda tímido, por falta de pensamento sobre ele e know-how) o modelo por subscrição paga. Porém, apesar de haver já alguns bons exemplos no Mundo, o novo modelo só vai vingar quando os investidores em publicações feitas por jornalistas profissionais compreenderem que não devem competir com os actuais produtores indiferenciados de conteúdos de informação. Designadamente circunscrevendo-se ao papel de agregadores de notícias. Notícias muito vezes não-confirmadas (fazendo tábua rasa das práticas próprias e necessárias ao jornalismo), embora reproduzidas em toda a parte, colaborando dessa forma para a desinformação generalizada. Um exemplo do que digo aqui.

O modelo por subscrição é o único capaz de garantir a independência do jornalismo, assegurando o financiamento das despesas com o próprio jornalismo – uma vez que a reportagem e a investigação constituem os géneros mais dispendiosos, o que, aliás, explica parcialmente o desinvestimento em jornalismo a que temos vindo a assistir desde o advento da Era digital.

Será pois necessário (e até mesmo urgente) investir em jornalismo, de nicho ou generalista, pago pelos seus subscritores e realizado por profissionais e apenas – considerando-se ser esse o único modelo capaz de enfrentar o mercado mundial, tornando os projectos auto-suficientes, e, desse modo, protegendo-os da actual extrema desregulação e volatilidade a que está sujeito o comércio de informação na Internet (pois disso se trata quando não é jornalismo).

Jornalismo literário: Ferreira Fernandes

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(c) Direitos reservados

Sei coisas sobre 1977 em Angola, o chamado “estalinismo negro”, os excessos a ceifar a vida dos divergentes, aquele soldado a marchar como se tivesse corda para sempre, caminhando se preciso sobre os cadáveres, obstinado em marchar para sempre, em nome de uma bandeira cujos valores mais virtuosos desonrou.

Sei estas coisas porque o jornalismo me tem posto Angola no caminho. A sua História atravessa-se constantemente na minha própria, chega a ser intrigante para alguém como eu, que não tenho uma história pessoal com África, que venho de demasiado a Norte para saber o Sul e que me disperso (e encanto) por tantos outros interesses e lugares humanos.

Para saber o Sul como por exemplo Isabela Figueiredo, a autora de Caderno de memórias coloniais, pedaço literário que considero excepcional, antes e para além do seu evidente valor documental: uma obra literária (isto é, feita com a verdade da arte chamada literatura) que é também um testemunho. Sobre Moçambique, no caso.

Ou para saber o Sul como Ferreira Fernandes, reduto de luz sobre a memória recente de quando Angola ainda era Portugal, ali a iluminar a redacção do Diário de Notícias, para que não nos sejam amputadas as lembranças que não podem ser esquecidas. Incluindo as que lembram tempos mais próximos já, de quando Angola já não era Portugal. Pois o nome van Dunem transporta uma memória, não há como rasurá-la: o passado reemerge mesmo que não queiramos.

Felizmente, ainda há jornalismo emocionante que pode ser feito sem sair da redacção: crónicas literárias à melhor “moda antiga”, para dizer jornalismo literário, ou seja, prosa duplamente escrita com a verdade, e ainda por cima, sorte a nossa, com as palavras mais justas, colocadas nos lugares mais certos.

A crónica de hoje de Ferreira Fernandes, a não perder, aqui.

«Manda quem pode, obedece quem deve»

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(c) Barbara Kruger, 1984

Os títulos da imprensa portuguesa sobre as pessoas que compõem o XXI Governo constitucional são o espelho de uma sociedade preconceituosa e segregadora das minorias. Que me lembre assim de repente, três jornais intitularam com recurso a frases que transportam esse racismo. No Expresso (dito jornal de referência), num perfil do Secretário de Estado das Autarquias, relevou-se para o título o facto de ser de origem cigana – tema que aliás, surpreendentemente, domina o texto.

No Jornal de Negócios, a propósito dos secretários de Estado do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, colocou-se num mesmo plano a formação académica de dois secretários de Estado e a deficiência de um outro: «Uma economista, um sociólogo e uma cega ao lado de Vieira da Silva». Mais tarde, na sequência da indignação de muitos expressa nas redes sociais, alterou-se o título acrescentando a palavra jurista aos “qualificativos” escolhidos para apresentar a Secretária de Estado da Inclusão. Mais: numa nota editorial em adenda à alteração, remeteu-se essa escolha para uma entrevista publicada noutro jornal (o Público), afirmando ser essa a palavra preferida da Secretária de Estado, em detrimento da palavra invisual.

Finalmente, e fazendo jus à sua já longa tradição na arte de intitular sem olhar a meios, o Correio da Manhã apregoou que «[António] Costa cham[ou] cega e cigano para o Governo» – aproveitando ainda para lembrar os laços de parentesco que unem entre si alguns governantes do novo executivo, numa clara e maliciosa sugestão de nepotismo que antecedeu a própria tomada de posse (!).

Lamentável jornalismo a que o anterior Governo deu gás, capturando-o para o discurso neoliberal em que vale tudo. Um discurso que ajudou o executivo de Passos e Portas a manter-se no poder, mediante uma instrumentalização cerrada e continuada da opinião pública que, como se vê pela amostra de títulos infelizes, em nada serviu nem a democracia nem o jornalismo.

Assim, de facto, não é de admirar que a maioria dos comentadores nas redes sociais e caixas de comentários dos jornais e blogs portugueses considere o 4º poder como um poder ilegítimo. Sucede que ele é na verdade fundamental às democracias. E que é justamente porque o 4º poder tem sido privado de escrutinar com independência os demais poderes que somos (ainda) dominados por uma imprensa sem qualidades – mandada por gente comprometida com interesses de sectores específicos da sociedade (partidários, económicos, financeiros) e obedecida por ignorantes da deontologia do jornalista. Como dizia Salazar numa sua famosa sentença: manda quem pode e obedece quem deve.

Actualização #1: Concordo com o que escreveu Bárbara Reis, directora do Público, sobre Francisca Van Dunem, a nova Ministra da Justiça. O assunto deste texto é contudo outro, e tem sobretudo a ver com a falta de qualidade do jornalismo português (globalmente considerado) que reduz a apresentação nos media de ministros diferentes dos habituais (por serem ou negros, ou cegos, ou de origem cigana) a essa diferença – que deve sem dúvida ser dita (noticiada, no caso).

Actualização #2: Concordo também com o que escreveu Fernanda Câncio no Diário de Notícias. É muito bom que o XXI Governo tenha finalmente pessoas que, sendo diferentes da maioria prevalecente, são iguais a tantas que existem na sociedade portuguesa. Fazer jornalismo é dizer. Mas dizer não deve ser discriminar, que é o que considero que fizeram os jornais que referi, movidos por um impulso de oposição à nova solução governativa antes mesmo de o Governo iniciar funções.

Actualização #3: É de racismo e de integração que querem falar? Então façam reportagem sobre a vida dos excluídos. Eu faço. Um exemplo aqui. Outro acoli (com uma entrevista em bónus). E já agora mais este.

Actualização #4: Patrícia Fonseca na Visão sobre «Por que é que ainda se escrevem notícias sobre cegos, negros ou ciganos no governo?»

Le Pen apanhada a mentir em directo

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(c) Martin Bureau/AFP 2012

Em França ainda há jornalismo. Esta manhã, Marine Le Pen mentiu relativamente a propósitos impossivelmente atribuídos a Christiane Taubira, a ministra da justiça de França. Segundo Le Pen, Taubira teria dito que “é preciso compreender os jovens que partem para a Síria”. Questionada sobre a origem de tal declaração pelo jornalista Patrick Cohen, Le Pen jurou que Taubira era a sua autora.

Posta perante a evidência de não ter sido assim, pela reescuta em directo da referida declaração de Taubira (em que na verdade disse que “é preciso compreender as causas que levam a que os jovens partam para a Síria para melhor os combater”, Le Pen engasgou-se um pouco e, para disfarçar o incómodo de ter sido apanhada a mentir, começou por dizer que aquela emissão parecia um tribunal, acabando pouco depois por abandonar o estúdio radiofónico da France Inter (saída abrupta e evidentemente mal-educada, de que não há imagens por ter ocorrido durante o intervalo para compromissos publicitários).

Recorde-se que Le Pen defende o confisco da dupla nacionalidade aos árabes e outros estrangeiros integrados na sociedade francesa e considerados potencialmente perigosos – uma ideia com que agora também Hollande concorda – e a recuperação do controlo das fronteiras do território francês, quanto a este último um argumento muito questionável, atendendo à relativa irrelevância das fronteiras físicas no combate a um fenómeno que assenta numa doutrinação que age indiferenciadamente sobre radicais que se encontram em toda a parte, vasto grupo também composto por jovens cidadãos franceses aparentemente integrados.

[Mais informação sobre a entrevista desta manhã de Marine Le Pen à France Inter aqui]

[Aqui a entrevista a Christiane Taubira, realizada nos Estados Unidos em Fevereiro de 2015, na sequência da matança no jornal satírico francês Charlie Hebdo]

Jornal Expresso vence prémio europeu de design editorial

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«O Expresso foi eleito “European Newspaper of the Year”, na 17ª edição dos prémios “European Newspaper Award”, com sede na Alemanha. De entre 196 publicações, de 26 países diferentes, Portugal volta a estar no mapa do design editorial.» Marco Grieco, director de arte do Expresso

Agora só falta o mais importante: o jornalismo propriamente dito. Num comentário no Expresso on-line, leio: «Tem piada… Jornal Europeu do Ano a um jornal que pouco discute a Europa e que vive centrado no umbigo da politiquice nacional…». Não podia estar mais de acordo. Aos 42 anos, o Expresso já tem maturidade para passar a outra coisa. Ou ainda não?

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