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comunicação social

O fim do velho jornalismo português

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(c) Valter Vinagre | Posto de trabalho

O jornalismo português, tal como o conhecemos, acabou. O que ainda resta dele dá por estes dias os que serão os últimos suspiros. Infelizmente, muitos jornalistas – e entre eles muitos já formados no paradigma digital -, foram já ou vão proximamente ser afastados do jornalismo, o que é especialmente revoltante, atendendo à mais comum capacitação que os elementos das gerações mais novas têm para o uso das tecnologias da Globalização.

Nas últimas semanas, evidenciando a total ausência de independência e isenção desse jornalismo, agora eloquentemente “esmagado” pelo advento de uma nova situação política nacional que lhe é adversa, várias notícias deram conta de despedimentos colectivos e programas de rescisão de contratos.

Pretende-se nalgum casos prosseguir os projectos originais, e noutros lançar novos. Com muito menos jornalistas, pagando-lhes cada vez menos e limitando-se os projectos, tanto quanto se pode perceber, a reproduzir na Internet os modos de fazer jornalismo usados para o suporte papel pelo velho jornalismo português.

A esse jornalismo anacrónico, agora sob a forma de projectos online, acrescentar-se-ão valências de entretenimento, e também agregadores de notícias, o que constitui, em si mesma, fraca diferenciação relativamente ao que já existe actualmente na Rede e nas redes dela – como são os casos do Facebook e do Twitter, imbatíveis tanto a entreter como a chegar em primeiro lugar.

Daqui a algum tempo, esmorecidos os investidores que financiarão a sobrevivência dos últimos super-quadros e jornalistas do já moribundo jornalismo português, despedir-se-ão mais jornalistas e dar-se-ão explicações muito questionáveis sobre as razões desses fracassos.

A não ser que se perceba, espera-se mais cedo que tarde, que existe já não apenas um novo modelo de negócio para o jornalismo, como também novos modelos de jornalismo para o jornalismo da Globalização. Só essa dupla condição permitirá a sobrevivência dos jornalistas portugueses no mercado do jornalismo de Língua portuguesa.

Jornalismo como missão de serviço público

«Venho da imprensa, foi nos jornais que me fiz jornalista, ou melhor dizendo, nas revistas semanais dos jornais e nalgumas revistas mensais – e falamos aqui portanto de um jornalismo reflexivo, de profundidade, para produzir texto longo, analítico, de valor testemunhal, memorial e também documental, por vezes literário, e não de notícias.

Assim, tenho procurado trabalhar, com a autonomia possível de um freelancer, os temas que considero mais importantes – os que, na minha perspectiva, mais justificam que eu faça sobre eles jornalismo. Nos últimos anos tenho feito quase só livros – uns sendo projectos meus, e outros que me pedem que faça – encomendas. Não se pense contudo que pelo facto de serem encomendas são produzidas de maneira menos conforme ao entendimento que tenho do jornalismo.

Tenho do jornalismo o entendimento de quem o encara como uma missão de serviço público. Quero dizer com isto que para mim, todo o jornalismo, independentemente da natureza da propriedade sobre os meios de comunicação social (justamente dita social), é uma missão. Ao mesmo título que um militar ou que um padre ou também que um médico têm ofícios de missão, isto é, funções especializadas e especialmente importantes a desempenhar na sociedade.

O que explica, aliás, que o jornalismo tenha o seu próprio enquadramento ético, plasmado no Código Deontológico do Jornalista, que constitui o seu juramento de Hipócrates. O projecto jornalístico que tenho procurado levar por diante tem não só os pés bem assentes nesse auto-enquadramento deontológico, como no imperativo de cobertura continuada dos chamados “grandes temas de sociedade”.

Significa isto também que há no jornalismo que me interessa fazer a preocupação de tratar das coisas ocultas, das menos visíveis, e muitas vezes aparentemente pouco mediáticas. Por vezes, das coisas que não interessam ou que não são abordadas por outros jornalistas – porque estão na vertigem da informação noticiosa, constrangidos pela actualidade, por horários e por hierarquias (amiúde totalmente desadequados à prática do jornalismo tal como a concebo), e não têm condições de existência como jornalistas para reparar ou para pensar em certas coisas – e consequentemente de levar essas coisas para o seu jornalismo.

Para fazer o jornalismo que me tem interessado é preciso andar na rua, conhecer o povo, saber como vive, ouvi-lo, viver e conviver com ele para poder ser a sua voz: é preciso, em certa medida, pertencer-lhe, apesar do olhar simultaneamente distanciado sobre ele que caracteriza a posição do cientista, neste caso do cientista social que é para mim o jornalista.

Por outro lado, à minha visão e práticas próprias não é alheio o projecto literário que prossigo. Em certo sentido, posso então dizer que tenho construído um projecto jornalístico de autor, digamos assim. É porque sou jornalista que sou também escritora, e é porque sou escritora que posso continuar a ser jornalista – na perspectiva, também, de poder dar contributos heterodoxos para um enriquecimento do jornalismo, sobretudo num momento especialmente difícil como aquele que presentemente vive o jornalismo. Serão estes, porventura, os seus piores dias.

E nessa sua nova configuração, o jornalismo tal como o concebo tem muitas dificuldades em ter um lugar – não por causa da revolução digital, nem por causa dos novos modelos de negócio que neste momento se tentam para o jornalismo, mas, sobretudo, na minha opinião, por causa da dificuldade que o jornalismo tem em ser um efectivo escrutinador dos poderes e um espelho verdadeiro e tão amplo quanto possível da sociedade (e não apenas de alguns sectores dela, como sucede com alguns títulos ditos “de referência”).» | S.A.

[excerto da comunicação proferida por ocasião da oficina de formação avançada Trauma e media, organizada pelo Centro de Estudos Sociais no âmbito da 2ª edição do Curso de Formação em Psicotraumatologia | 7 de Novembro de 2015]

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