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Um redondo vocábulo

Sarah Adamopoulos © 2012–2017

Estado de emergência: implicações nos direitos, liberdades e garantias

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(c) Aimée Thirion/Libération

Seis meses de prisão para quem comparecer à manifestação convocada para Paris no próximo domingo, dia 29 – proibida por Manuel Valls. Mais info (em Francês) aqui.

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Um Governo do lado do povo

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Le peuple des pauvres (JF Favre 2008)

«Não creio estar a exagerar se disser que os últimos quatro anos foram os piores de todos desde que sou portuguesa. Piores para o povo, que vi fenecer, entristecer, partir, ser privado dos seus direitos constitucionais, destruído nos seus mais legítimos anseios, numa devastação que não julgava possível à acção política em democracia no decurso de uma só legislatura.» (continuar a ler no Aventar)

Portugal: uma sociedade doente

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(c) Sandra Bernardo

«Não havendo ruptura, não há julgamento, e por isso não pode haver regeneração. Mas tem de haver condenação. O 25 de Abril foi sintomático disto que digo. Rompeu-se com o Estado Novo – eis outra ideia falsa, pois tratava-se na verdade de um Estado Velho, com gente velha, de pensamento velho –, mas não se rompeu com os problemas desse Estado. Por isso vivemos numa sociedade onde a hipocrisia se mantém, com outras formas. O que é que isto faz em termos de saúde mental? Faz com que não tenhamos a consciência de que por vezes temos mesmo de nos zangar com as pessoas que nos fizeram mal e que controlam a nossa vida.» Carlos Céu e Silva [entrevista realizada por Sarah Adamopoulos, publicada no Aventar a 2 de Outubro de 2015]

«Manda quem pode, obedece quem deve»

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(c) Barbara Kruger, 1984

Os títulos da imprensa portuguesa sobre as pessoas que compõem o XXI Governo constitucional são o espelho de uma sociedade preconceituosa e segregadora das minorias. Que me lembre assim de repente, três jornais intitularam com recurso a frases que transportam esse racismo. No Expresso (dito jornal de referência), num perfil do Secretário de Estado das Autarquias, relevou-se para o título o facto de ser de origem cigana – tema que aliás, surpreendentemente, domina o texto.

No Jornal de Negócios, a propósito dos secretários de Estado do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, colocou-se num mesmo plano a formação académica de dois secretários de Estado e a deficiência de um outro: «Uma economista, um sociólogo e uma cega ao lado de Vieira da Silva». Mais tarde, na sequência da indignação de muitos expressa nas redes sociais, alterou-se o título acrescentando a palavra jurista aos “qualificativos” escolhidos para apresentar a Secretária de Estado da Inclusão. Mais: numa nota editorial em adenda à alteração, remeteu-se essa escolha para uma entrevista publicada noutro jornal (o Público), afirmando ser essa a palavra preferida da Secretária de Estado, em detrimento da palavra invisual.

Finalmente, e fazendo jus à sua já longa tradição na arte de intitular sem olhar a meios, o Correio da Manhã apregoou que «[António] Costa cham[ou] cega e cigano para o Governo» – aproveitando ainda para lembrar os laços de parentesco que unem entre si alguns governantes do novo executivo, numa clara e maliciosa sugestão de nepotismo que antecedeu a própria tomada de posse (!).

Lamentável jornalismo a que o anterior Governo deu gás, capturando-o para o discurso neoliberal em que vale tudo. Um discurso que ajudou o executivo de Passos e Portas a manter-se no poder, mediante uma instrumentalização cerrada e continuada da opinião pública que, como se vê pela amostra de títulos infelizes, em nada serviu nem a democracia nem o jornalismo.

Assim, de facto, não é de admirar que a maioria dos comentadores nas redes sociais e caixas de comentários dos jornais e blogs portugueses considere o 4º poder como um poder ilegítimo. Sucede que ele é na verdade fundamental às democracias. E que é justamente porque o 4º poder tem sido privado de escrutinar com independência os demais poderes que somos (ainda) dominados por uma imprensa sem qualidades – mandada por gente comprometida com interesses de sectores específicos da sociedade (partidários, económicos, financeiros) e obedecida por ignorantes da deontologia do jornalista. Como dizia Salazar numa sua famosa sentença: manda quem pode e obedece quem deve.

Actualização #1: Concordo com o que escreveu Bárbara Reis, directora do Público, sobre Francisca Van Dunem, a nova Ministra da Justiça. O assunto deste texto é contudo outro, e tem sobretudo a ver com a falta de qualidade do jornalismo português (globalmente considerado) que reduz a apresentação nos media de ministros diferentes dos habituais (por serem ou negros, ou cegos, ou de origem cigana) a essa diferença – que deve sem dúvida ser dita (noticiada, no caso).

Actualização #2: Concordo também com o que escreveu Fernanda Câncio no Diário de Notícias. É muito bom que o XXI Governo tenha finalmente pessoas que, sendo diferentes da maioria prevalecente, são iguais a tantas que existem na sociedade portuguesa. Fazer jornalismo é dizer. Mas dizer não deve ser discriminar, que é o que considero que fizeram os jornais que referi, movidos por um impulso de oposição à nova solução governativa antes mesmo de o Governo iniciar funções.

Actualização #3: É de racismo e de integração que querem falar? Então façam reportagem sobre a vida dos excluídos. Eu faço. Um exemplo aqui. Outro acoli (com uma entrevista em bónus). E já agora mais este.

Actualização #4: Patrícia Fonseca na Visão sobre «Por que é que ainda se escrevem notícias sobre cegos, negros ou ciganos no governo?»

Mostra de Teatro de Almada (2)

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Blaise Cendrars escreveu Contos negros para os filhos dos brancos nos anos 1920, fazendo de África um território como ainda não se tinha visto na Europa colonial da época. Os homens, que são iguais, insistem em não querer ser iguais. Iguais entre si, mas também iguais aos outros seres vivos, muito embora transportando cada um a alteridade de que é feita toda a vida. Como mostrar às crianças a igualdade intrínseca dos diferentes que o tempo e o espaço reúnem na cadeia da existência de todas as coisas do Mundo? No teatro, por exemplo. Foi o que procuraram fazer Lavínia Moreira (dramaturgia) e Laurinda Chiungue (encenação), que também interpretam, com uma muito feliz colaboração musical ao vivo de Teresa Gentil, tudo isto enriquecido por incríveis adereços e marionetas criados por Delphim Miranda.

Momento alto desta edição da Mostra de Teatro de Almada, Contos negros para os filhos dos brancos estreou a 24 de Novembro no Teatro-Estúdio António Assunção, perante uma plateia constituída por cerca de uma centena de crianças, nesse dia subtraídas às escolas almadenses para ver um espectáculo de teatro que brevemente as levou aos melhores lugares mentais da infância: a imaginação, a fraternidade, a coragem, o prazer da música, o riso. Teatro de texto – texto maior -, exemplarmente trabalhado com criatividade, poesia e humor, Contos negros para os filhos dos brancos demonstra a que ponto nos livros dos escritores e dos poetas – por vezes nos menos conhecidos – habitam espectáculos de teatro à espera de quem os saiba encontrar e decifrar os porquês. Um espectáculo que na minha opinião merece uma carreira à altura da sua qualidade. Bravo, Teatro ABC.PI!

Finalmente “PASSOS RUA!”

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Um dia voltei para casa com um papel onde estava escrito PASSOS RUA! Como me parecesse importante – e até mesmo imperativo – que o objectivo fosse algum dia cumprido, se possível mais cedo que tarde, colei esse papel na parede da cozinha – para não esquecer, acaso viesse eu a ser embalada pela máquina de adormecer a consciência, que porventura me fizesse cegar para a desolação em que vi Portugal cair.

Sucedeu nesse momento um regresso a um outro tempo, um tempo de silêncio e de sofrimento, tempo miserável e anacrónico marcado pela deserção de tantos, e remetendo-se a restante maioria a uma negação do real (para dizer a realidade comum), muito embora contrabalançada pela catártica indignação de outros – apesar de apenas visível nos fóruns mediáticos de vomitar a náusea e o mal-estar, sobretudo depois da demonstração de força que constituiu a brutal agressão (ao povo indistinto ali reunido) ocorrida a 14 de Novembro de 2012 junto à Assembleia da República.

Assim se foi levando, e em certa medida resistindo-lhe, o empobrecimento infligido à gente de um lugar a que a corrupção de Estado e interesses instalados por tão longo tempo manteve “em vias de desenvolvimento” – formulação entretanto desaparecida, é certo, devido a imperativos transnacionais com que a coligação do Governo agora finalmente ultrapassado se havia comprometido.

O tempo passou mas Pedro Passos Coelho não passou. O seu mandato eternizou-se, como se determinado por forças transumanas empenhadas em infernizar a vida a um povo, (des)tratando o seu país (território, riqueza, História, memória, cultura, democracia) como uma empresa a cuja falência nenhuma política pudesse acorrer. Na cozinha, mimetizando o que sucedia no País, o papel azul eternizou-se também.

Mudámos de casa e o papel seguiu connosco, enfiado numa caixa de papelão. Chegados à nova casa, pespegámos o papel na parede da nova cozinha. Ali ficou por outro tanto longo tempo, inútil como algo sem alternativa. Comecei a colar nele os pequenos selos encontrados na fruta certificada.

O tempo passou e a frase quase desapareceu por detrás da trincheira formada por dezenas de pequenos autocolantes de maçãs, pêras, etc. Fomo-nos abastecendo de vitaminas, única forma de resistir ao Governo de Pedro Passos Coelho.

Hoje é dia de finalmente mandar o papel azul para o lixo. Foi difícil, muito até, mas Pedro Passos Coelho foi mesmo posto na rua. Não na rua do povo, onde não tem um lugar, mas na rua metafórica do poder que lhe foi democraticamente subtraído por uma maioria parlamentar sustentada numa inédita (e até tarde julgada improvável) união da esquerda em Portugal.

Mostra de Teatro de Almada 2015 (1)

cartaz 19 MTA

Decorre desde o passado dia 12 a Mostra de Teatro de Almada. Não vi o espectáculo de abertura, O Grito, de Herberto Helder, pel’O Grito, por ter ido ver nessa noite, ao CCB, a estreia do espectáculo deste ano da Companhia Maior – um projecto com que tenho afinidades electivas, e cuja caminhada (cinco anos nesta data) tenho seguido de perto.

Sobre o primeiro espectáculo que vi daquela que é a 19ª edição da Mostra, A Festa, abstenho-me de dizer aqui mais do que o que escrevi na sinopse disponibilizada no programa da Mostra. Fui a responsável pela sua construção dramatúrgica, naquela que foi uma reedição de uma parceria colaborativa com Joana Sabala, que assinou a encenação. Estou, por essa razão, demasiado envolvida para ter distância crítica.

Vi Beremiz na Terra Plana (um texto a partir de autores tão diversos – também entre si – como Clarice Lispector, Millôr Fernandes ou António Cabrita), num espectáculo pelas Produções Acidentais, com dramaturgia e encenação de Luzia Paramés. Prioritariamente dirigido às escolas e à pedagogia da Matemática e da Geometria, nada nessa sua natureza o tornou menos relevante para um público adulto. Peça sensível, habitada de uma ponta à outra pela poesia, e sustentada num texto bem entretecido e recurso a bons materiais plásticos e musicais. Sobre o actor João Dacosta, que faz as despesas do espectáculo, achei-o competente, seguro em palco, capaz de interagir empaticamente com o público, e, mais importante, luminoso.

Vi também Twisted Swan, uma criação de Maria João Garcia e Rodrigo Miragaia para o Ninho de Víboras. Música (poderosa) de Carlos Zíngaro, com interpretação de Francisca Santos e Joana Bergano, tanto quanto sei bailarinas. O espectáculo teve lugar numa antiga sala de aula da Escola Conde Ferreira, edifício desafectado ao ensino onde muito do que acontece no teatro amador e na formação teatral em Almada se experimenta. Dialogando com essa razão, a performance, de carácter vincadamente experimental, dificilmente cabe na caixa catalogadora do teatro. Não por ser totalmente ausente de texto, mas por se situar numa grandemente indefinível fronteira criativa, seguramente mais habitável pela dança contemporânea. Muito bem iluminado, tirando grande partido do espaço decadente da sala, vi Twisted Swan como um objecto essencialmente plástico e musical.

Laicidade, integração

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«Fomos atacados porque a França é uma antiga potência colonial do Médio-Oriente, porque a França bombardeou certos países para poder meter uma mão generosa nos seus recursos, porque a França é acessível geograficamente, porque a França está próxima da Bélgica e que é fácil para o djihadistas belgas e franceses comunicar graças à Língua, porque a França é um terreno fértil para recrutar djihadistas.» Porque a França contribui desde há longo tempo para alimentar a miséria do Mundo e que essa miséria não é apenas material, lembra-me um amigo.

Porque a França pós-colonial e multicultural gerou uma sociedade em que o racismo se normalizou – ou aliás, uma sociedade em que o racismo endémico (doente, anacrónico) se manteve. Onde a integração passa pela sujeição, de que é exemplo paradigmático o decreto que proibiu os símbolos religiosos (o véu das raparigas, por exemplo) na escola pública. Uma proibição de necessidade muito questionável, realizada em nome das normas securitárias do Mundo pós-11 de Setembro (visando especialmente o uso das burkas) e em nome do Estado laico – como se a laicização não devesse essencialmente ser sustentada no ensino propriamente dito, isto é, nos conteúdos dos programas que ensinam a separação dos poderes.

Le Pen apanhada a mentir em directo

O homem que apanharam hoje, “o cérebro”, era belga. Belga de origem marroquina, como por exemplo o meu amigo Ahmed dos tempos de faculdade. Belga. O que é que isso nos diz sobre as sociedades multiculturais europeias?

Um redondo vocábulo

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(c) Martin Bureau/AFP 2012

Em França ainda há jornalismo. Esta manhã, Marine Le Pen mentiu relativamente a propósitos impossivelmente atribuídos a Christiane Taubira, a ministra da justiça de França. Segundo Le Pen, Taubira teria dito que “é preciso compreender os jovens que partem para a Síria”. Questionada sobre a origem de tal declaração pelo jornalista Patrick Cohen, Le Pen jurou que Taubira era a sua autora.

Posta perante a evidência de não ter sido assim, pela reescuta em directo da referida declaração de Taubira (em que na verdade disse que “é preciso compreender as causas que levam a que os jovens partam para a Síria para melhor os combater”, Le Pen engasgou-se um pouco e, para disfarçar o incómodo de ter sido apanhada a mentir, começou por dizer que aquela emissão parecia um tribunal, acabando pouco depois por abandonar o estúdio radiofónico da France Inter (saída abrupta e evidentemente…

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