© SARAH ADAMOPOULOS
Prefácio de Diana Andringa
Planeta, 2012
Págs. 320
ISBN: 978-989-657-284-6
DIMENSÃO: 15,5 x 23,5 cm
Editora: Ana Pereirinha

«(…) Se fosse necessário condensar este importante livro numa única palavra, escolheria entender. O que a autora faz, num trabalho de «grande jornalismo» que se serve de uma escrita aliciante para aumentar o interesse do leitor e que pode ver-se como bastante próximo da investigação histórica, é procurar promover, unindo as pontas soltas das experiências de pessoas que passaram sobretudo pelos territórios de Angola e de Moçambique, a compreensão dos percursos que fizeram, ou lhes foram impostos, lá e cá. É entender esse quase indizível e sem dúvida amargo sentimento de «perda de passado», que tantos anos depois aflige ainda a larga maioria delas.» Recensão crítica de Rui Bebiano n’A TERCEIRA NOITE

Recensão crítica de Luís M. Faria na revista ACTUAL/EXPRESSO
EXPRESSO_18_08_2012

Comentário de contracapa
«Na surda peleja que os portugueses têm travado em torno do seu passado colonial, as narrativas do regresso têm sido mais inscritas na recordação colectiva desse outro tempo do que no confronto com as razões e consequências do seu fim. Estranha, mas significativa evidência da memória contingente que a sociedade portuguesa tem construído de si própria.

Boa parte do enigma é decifrado neste livro de Sarah Adamopoulos, um texto sagaz e intimista que a autora dedica às realidades e imaginários do retorno dos portugueses (brancos e pretos) a um país em tumulto revolucionário. Nesse tempo de todas as euforias e desesperos, o velho país salazarista, que fora mantido à força de emigrantes e colonos e acomodado ao mito da nação imperial, encheu-se de “retornados”. São eles os actores principais desta história.

Eis um livro a diversas vozes que, mais do que invocar os destroços humanos do império que à pressa se desfez, compõe uma memória plural dos imbricados processos de colonização, descolonização e retorno. Um livro de História e de memórias, de discursos e identidades múltiplas, como convém a uma sociedade aberta, que só o será se não quiser esquecer as vivíssimas transformações que conheceu nos tempos de Abril.»

Álvaro Garrido
Historiador
Universidade de Coimbra

Texto introdução autora
«(…) Fiz-me de todos deles confidente, e ouvi-os amorosamente, tanto quanto possível sem peias ideológicas a estorvar o entendimento e a compreensão daquilo por que haviam passado. Pesasse embora a minha inexperiência colonial, quis-me uma confidente descomprometida – alguém que, sem uma história de África para contrapor às suas, se achou liberta de interesses pessoais e estorvos sentimentais e se sentou algures entre 1974 e 1976 a vê-los chegar aos portos e aeroportos de Portugal, querendo saber como tinha sido: África, os de lá, as formas do colonialismo português, o paternalismo do velho Estado imperial, o fim de tudo aquilo, o momento em que se fechou a porta, a fuga para safar a vida, a chegada, os confrontos com os de cá, os primeiros tempos da integração, os ressarcimentos patrimoniais que nunca se fizeram, e as saudades daquilo que não passam.

Uma confidente que ouviu as suas histórias e aceitou que assumissem posições por vezes controversas, incómodas do ponto de vista do próprio colonialismo e de como o viam – ou não viam, tendo o espelho que proporcionei a alguns levado a que, já depois de terem lido as transcrições dos seus testemunhos orais, desistido de participar, incapazes, quiçá, de se enfrentarem a si próprios e a tudo o que ficou por reorganizar mentalmente (no sentido de um novo compromisso com os tempos) após o fim do colonialismo.

Mas nem só aos antigos colonos quis estender esse espelho, tendo-o também feito aos portugueses continentais, nunca saídos de Portugal e que receberam os retornados e refugiados cheios de acusações, naquele momento em que se viram livres, tanto para serem intransigentemente comunistas como para maltratarem quem não quisesse sê-lo, rotulando-os de fascista, imperialista ou, mais prosaicamente, reaccionário – que, dependendo deles, não passariam. E também aos povos nesse momento descolonizados estendi o mesmo espelho, aos que, renegando uma longa história de convívio com os portugueses, se viram quanto a eles livres para matarem tantos brancos então desaparecidos – impedindo que muitos mais permanecessem nos territórios que então mudavam de mãos, impossibilitando a construção em conjunto de Angola ou Moçambique tornados Estados independentes de Portugal.

E nesse espelho vi-nos a todos – os preconceituosos agressivos, os descolonizados, os retornados e os exilados da grande Pátria desaparecida nesse momento. Vi-nos a todos: os filhos eternamente adolescentes do velho pai autoritário que ainda hoje nos faz carregar a saca das culpas a que os julgamentos que não se fizeram dos crimes do Estado Novo inconscientemente nos obrigam; e os outros filhos, os nossos irmãos, os do Portugal simbólico, o da língua que inexoravelmente nos une e unirá, nessas partes do mundo distantes por onde andou o nosso velho pai.

Por fim, uma palavra relativa a outro grupo que não poderia ficar esquecido, apesar dos testemunhos aqui publicados serem de pessoas na sua grande maioria regressadas logo depois do 25 de Abril, entre 1974 e 1976. Refiro-me aos estimados em mais de 200 000 que voltaram mais tarde dos países para onde fugiram e se exilaram com o advento das independências – a África do Sul, e o Brasil, sobretudo. Pessoas que
tentaram a sorte nesses países onde foram acolhidos, mas que acabaram por regressar, em muitos casos reencontrando em Portugal destinos de miséria – muitos a trabalhar hoje de forma precária no comércio ou a conduzir táxis, numa idade em que a reconstrução das suas vidas é uma comprovada impossibilidade.

Apesar de ciente de constituir o conjunto de testemunhos aqui reunidos uma pequeníssima parte de um todo, tentei que fosse tão representativo quanto possível da heterogeneidade dos seus subgrupos discursivos. Interessaram-me, também, dois aspectos habitualmente arredados das preocupações de quem tem estudado o tema colonial: a questão das identidades pós-coloniais e aquilo que Eduardo Lourenço designa por «colonialismo orgânico» (o historiador René Pélissier chama-lhe «síndrome de planisfério»), constitutivo da identidade portuguesa. Uma doença, certamente, padecimento de português cujo entendimento sobre a dimensão concreta do seu país parece sempre regido (e toldado) por essa índole, que sei ser também a minha, e apesar dos espelhos que a escrita me proporciona.

Posso entrever essa natureza no olhar dos passageiros (e o meu não diverge) que atravessam o rio Tejo nos novos navios de dimensões bastante maiores do que os antigos cacilheiros, transportando de uma assentada centenas de pessoas e dezenas de automóveis, sobredimensionados para as travessias fluviais a que se destinam, e de onde se tem a visão do olhar marítimo de todos os seus passageiros, nenhum deles alheado perante a visão do rio que evoca todas navegações, o olhar invariavelmente sonhador e extasiado perante a beleza de forte carga simbólica do rio que é já um mar – o mar que perdemos mas que não nos morre, e para além do qual há outras terras e oportunidades, onde decerto poderíamos erguer ou reerguer as vidas de que em Portugal não nos vemos capazes.

Será, assim, sempre difícil o equilíbrio entre a lucidez histórica e os destroços do Império que cada português, mesmo se impuro e envergonhadamente, ainda hoje acarinha, cabisbaixo e absorto, enquanto caminha ao longo da praia, olhando o mar que, na maior parte dos casos, apenas conhece de ver lá ao longe, quando vai à praia no Verão. Mas o seu olhar será sempre amoroso: o olhar do homem pessoano «com o sentido marítimo» de quem vê «nos paquetes que entram de manhã na barra» as «memórias de cais afastados e doutros momentos […] da mesma humanidade noutros pontos» (Álvaro de Campos).» Continuar a ler

Breve entrevista de Inês Forjaz para o Diário Câmara Clara em Julho de 2012

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© SARAH ADAMOPOULOS e JOSÉ LUÍS FALCÃO DE VASCONCELLOS
Prefácio de António Sampaio da Nóvoa
Quimera, 2009
Págs. 264
ISBN: 978-972-589-203-9
DIMENSÃO: 230x260mm
Edição encadernada com sobrecapa a cores
Editor: José Alfaro

Visões da escola ao longo de um século
Heterodoxamente construída com base nos testemunhos dos muitos que sobre o Liceu escreveram ou falaram (várias entrevistas foram expressamente realizadas para esta edição comemorativa, que integra também inúmeros testemunhos escritos – alguns retirados de pedaços da nossa melhor Literatura), a história centenária do Liceu de Camões que este livro narra é a dos seus habitantes. História plural, por vezes polémica, feita de diferentes vivências e olhares, de diferentes concepções sobre a escola e o País.

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TESTEMUNHOS DE Leitão de Barros, Francisco Pinto da Cunha Leal, Mário de Sá-Carneiro, José Gomes Ferreira, José Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro, Pedro Teotónio Pereira, Mário Dionísio, Costa Ferreira, Artur Agostinho, Urbano Tavares Rodrigues, Luís Filipe Lindley Cintra, Jorge de Sena, Manuel Jacinto Nunes, José Cardoso Pires, Luiz Pacheco, Nikias Skapinakis, António Lobo Antunes, Pedro Tamen, João Bénard da Costa, Basílio Horta, Júlio Isidro, Jorge Miranda, Joaquim Ferreira do Amaral, Adriano Jordão, José Luís Saldanha Sanches, Eduardo Prado Coelho, João David Nunes, Mário de Carvalho, Luís Miguel Cintra, Nuno Júdice, Jorge Palma, Jorge Silva Melo, José Manuel Durão Barroso, David Ferreira, António Guterres, Ana Paula Russo, João Mesquita, Vergílio Ferreira, Mariano Gago, entre muitos outros.

Do prefácio de António Sampaio da Nóvoa:
O que é a autoridade?
«Os problemas da liberdade e da autoridade estão muito presentes nas memórias da vida liceal. Antes de 1974, prevalece a recordação da ordem e do controlo, ainda que vários testemunhos lembrem que não há imagem mais triste, e ridícula, do que um professor aos berros tentando pôr ordem numa turma que não o respeita. A autoridade de fora serve de pouco se não for capaz de descobrir uma autoridade de dentro. O tão maltratado Rousseau já o havia escrito no seu Emílio ou da educação: “A criança só deve fazer aquilo que quer; mas deve querer apenas aquilo que vocês querem que ela faça; ela não deve dar um passo sem que vocês o tenham previsto; ela não deve abrir a boca sem que vocês saibam o que ela vai fazer. Deixem que o vosso aluno acredite ser sempre ele o mestre, quando, na verdade, são sempre vocês que o são.”. E António Sérgio tinha-o recordado no princípio do século xx: “A criança abomina a coerção, mas apraz-lhe o ser dirigida; encaminhem-na pois com a mão discreta, como a um cidadão aprendiz que na verdade é. Desta maneira, a autoridade do professor mantém-se plena; não abdica”. É muito interessante ler, nestas memórias do Camões, várias referências a este propósito. Veja-se, a título de exemplo, o testemunho de Durão Barroso: “Há um grande pedagogo norte-americano, o filósofo e psicólogo William James, que afirmou que o segredo da educação é fazermos automaticamente e sem esforço aquilo que deve ser feito. Penso exactamente assim”.

Depois de 1974, as preocupações situam-se cada vez mais na indisciplina e na falta de autoridade dos professores. É impossível ignorar a Conta Corrente de Vergílio Ferreira e as suas críticas a manifestos que correram no Camões: “No fundo, o seu programa inconfessável é simples: não estudar, passar o ano e ter o professor às ordens como têm em casa as sopeiras. Exigir do professor notas, muito saber, como à criada se exige que lhes traga café ou o penico. E é isto. Com fascismo ou sem ele, o professor continua a ser o escravo que sempre foi”. O livro de Sarah Adamopoulos e José Luís Falcão Vasconcellos conduz-nos por estas questões e por muitas outras que atravessam o quotidiano liceal. Em Portugal, já o disse, há por vezes memória a mais, o que nos arrasta para um discurso nostálgico: “Dantes, tudo era bem melhor…”. Curiosamente, este excesso de memória traduz-se, na prática, num excesso de esquecimento: ignoramos as condições de vida concretas que existiam neste “dantes” que agora imaginamos feliz. O trabalho realizado pelos autores do livro foge a estes dois enganos, trazendo-nos uma reflexão vivida, lúcida e inteligente sobre o Liceu Camões. Graças à sua leitura, percebemos de que modo o liceu permitiu, nalguns casos, escapar a destinos que pareciam traçados e, noutros, confirmar percursos de homens e mulheres com um papel decisivo na sociedade portuguesa. Um dos seus méritos principais é contar uma história que não está parada no tempo. Sarah Adamopoulos e José Luís Falcão Vasconcellos trazem o Camões até aos dias de hoje, criando uma continuidade entre o Liceu e a Escola Secundária e conseguindo, desta forma, explicar aos leitores que os debates e os dilemas do presente não são menos importantes do que aqueles que tiveram lugar no passado. Ao fazê-lo, inscrevem este livro de testemunhos e memórias num esforço para compreender a realidade contemporânea. São muitos os futuros possíveis. Mas só um terá lugar. Hannah Arendt escreveu que uma crise apenas se torna catastrófica se lhe respondermos com ideias feitas. Tinha razão. Temos de ir além do já conhecido e organizar o presente de modo a podermos actuar sobre o futuro que desejamos. A história é o melhor lugar para pensar o futuro.» Mais informação.

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© SARAH ADAMOPOULOS
Planeta, 2010
Págs. 312
ISBN: 978-989-657-106-1
DIMENSÃO: 15,5 x 23,5 cm
Editora: Cristina Ovídio
Biografia oficial, feita em colaboração com o biografado por ocasião dos 50 anos de carreira, no ano em que completou 70 anos de vida.

Da introdução da autora:
NICOLAU BREYNER – UMA BIOGRAFIA

«Uma biografia é um retrato de vida inteira que constitui antes de mais um exercício de ironia. Um exercício que, à semelhança do «instante de ironia póstuma» [Susan Sontag] que define o retrato fotográfico, é uma visão parcial da vida de alguém. Ironia do biografado que, retrospectivando, fixa para memória futura escolhas necessariamente subjectivas, conferindo-lhes eternidade. Ironia, também, da biógrafa, narradora da vida de um outro, enfrentando as inevitáveis zonas de opacidade da construção da memória. Mas também o que naturalmente decorre dos processos de reconhecimento humano, presentes de igual modo no retrato fotográfico: afinidades, divergências, empatias, cumplicidades, etc., tendo-se a biógrafa devido, por essa razão substantiva, uma constante vigilância – mediante, designadamente, uma distância segura do objecto da escrita, para que não fossem, biógrafa e biografado, toldados por cumplicidades demasiadas. Advertência programática necessária, embora seja esta uma biografia oficial, feita em colaboração com o biografado – um homem conhecido (e reconhecido, tal como fica registado neste trabalho) pelas qualidades humanas de quem se construiu (e à sua vida) em torno de afinidades electivas, ou filiações afectivas, se preferirem.

O facto de ser esta uma biografia de um homem público, cujo trabalho atravessa uma parte importante do século XX português, acresceu em responsabilidade a tarefa de fazer emergir da memória um conjunto de factos, vivências, momentos, passíveis de compor um retrato simultaneamente verdadeiro, mas também aberto à interpretação das entrelinhas, do biografado como da biógrafa – retrato não-fechado, sem moral da história, e, sobretudo, podendo ir para além da petite histoire. Narrar a vida de alguém cuja popularidade atravessa cinquenta anos de carreira, extravasando critérios de gosto e outras sensibilidades (ideológicas, nomeadamente), requereu assim apertados padrões de relevância na selecção dos materiais biográficos. Se é certo que o percurso de Nicolau Breyner tem as qualidades das vidas extraordinárias, certo é também que ele faz história pela preponderância de factos que interessam a memória colectiva. Assim, aqui ficam também contadas pequenas partes de várias outras histórias – as do teatro, da televisão, do cinema, mas também algumas de Serpa e de Lisboa. Uma popularidade que, se por um lado, resulta grandemente de uma ininterrupta exposição televisiva (tão remota quanto a televisão em Portugal), por outro, tem explicações que a razão desconhece: as do afecto de várias gerações de um povo a ele afeiçoado.

Depois de Raul Solnado – incontornável neste texto de afectos –, de uma mesma grandeza afectiva em termos da representação social do actor, resta ele: um actor inesquecível, versátil, com caminho feito no teatro popular português, experimentadíssimo nos plateaux de televisão e de cinema, produtor, realizador, e também autor de programas paradigmáticos que mudaram a história da televisão e do humor feitos em português. Apesar da prevalência da comédia no conjunto das realizações do actor, é no drama que se tem talvez ultimamente mais empenhado, género e condição em que actualmente os portugueses o preferem. Talvez porque ele os conheça e compreenda o bastante para ter sido tantas vezes capaz de representá-los nas personagens que melhor os definem, e em que se revêem. Um semelhante – o Zé Povo, a Tia Eva, mas também o João Godunha, o Securas, o bom polícia, o gangster, o militar mauzão, o pai tirano. (…)»

Do 1º capítulo:
O ALENTEJO
«Serpa é cheia de pergaminhos, há nela uma nobreza natural, como se anterior aos seus habitantes, também eles entretanto tocados pela distinção – a que habitualmente cabe aos naturais da nação alentejana. Uma dignitas que embora possamos reconhecer noutros lugares portugueses de forte memória histórica, na outrora denominada Vila Notável surge como elemento constitutivo do lugar. A terra forte, cuja robustez marca o próprio chão (o empedrado irregular das ruas tornando inesquecíveis os passos nelas cumpridos pelos forasteiros), tem a beleza e a majestade da campina, a sua
grandeza e mistério. Pergaminhos também concretos, os do lugar e de quem o habitou.

Bastião militar estratégico, que desde sempre a colocou entre as mais irredutíveis trincheiras de defesa do território de fronteira, Serpa é generosa em antiguidade histórica. Tomada aos mouros em 1166 por Geraldo Geraldes (o Sem Pavor) ao serviço do fundador da nacionalidade, Serpa foi romana (Sirpe) e árabe (Shirba), tendo a nobreza das suas gentes insignes justificado, no final do século XVII, a atribuição, pelo futuro rei D. Pedro II, do título de «Vila Notável». Concedido em 25 de Agosto de 1674 por carta patente do príncipe regente D. Pedro, em nome do irmão D. Afonso VI, o título honorífico não apenas honrou a terra, como lhe deu alguns privilégios e prerrogativas municipais. A partir daquela data, a designação da terra passou a ser em toda a documentação oficial «Notável Vila de Serpa». A honra, que reconheceu séculos de conquistas dignas de nota, entranhou-se-lhe nas gentes, independentemente das suas origens e anseios.

«Lá vai Serpa, lá vai Moura, e as Pias ficam no meio» – o tema do cancioneiro popular que Amália imortalizou em 1967, quando, numa das suas revisitações ao Portugal rural dos cantares e dos costumes, cantou também o Alentejo. Gente da raia, «fidalga» e «de porte altivo», um ditado topográfico entretanto emendado pelos naturais define os de Serpa e a sua terra: Serpa serpente, boa a terra, melhor a gente. A primeira parte desta biografia homenageia-os, aos naturais do celeiro de Portugal que a Campanha do Trigo de Salazar não cumpriu, como aliás nenhum outro programa económico de regime para a região. Lugar difícil, árido, de vastidão adversa, temperaturas diabólicas, habitado por gente persistente, arreigada à terra como árvores seculares, cujas raízes fossem demasiado fundas para algum dia poderem ser cortadas.

Nesse Alentejo, rico em pelejas históricas e lendas naturalistas, nasceu no seio de uma família da aristocracia o actor objecto desta narrativa biográfica.»  Mais informação.

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© SARAH ADAMOPOULOS
Oficina do Livro, 2005
Páginas: 204
Editora: Cristina Ovídio
Capa e ilustrações no interior do livro por Alice Geirinhas
ISBN: 978-989-555-143-9

 

Sinopse
Portugal, anos 40: o negócio do volfrâmio transforma uma sociedade maioritariamente composta por miseráveis e por uma reduzidíssima elite que detém o poder.
Portugal, anos 50 e 60: um manto de silêncio cobre o pequeno país peninsular, empurrando-o de uma forma trágica para um lugar oculto na História e na geografia da Europa e do Mundo.
Portugal, início do século XXI: no bairro lisboeta de Campofrio (entre a Cruz e os Inválidos, ligados pela linha do eléctrico número 7), Angel e Maria das Dores envelhecem penosamente. Até que um dia a mulher decide deixar o marido e regressar à aldeia onde nasceu.
Um retrato do século XX português, contado a partir da vida dos velhos de hoje. É com eles que morrerá o Portugal rural, a vivência do fascismo, o isolamento, as privações. Um texto em que os tempos histórico e literário caminham lado a lado e em que o Fantástico encontra a sua expressão nas personagens da Morte e de Boris Viana, o poeta que quisera ser poema.

Retomei com este livro a parceria criativa com a artista plástica Alice Geirinhas, autora também da capa e ilustrações no miolo de Viver Mata (Oficina do Livro, 2001), editado por Gonçalo Bulhosa.