redacção

Sinto que devo explicar-me sobre o que tenho escrito em favor de uma mudança no jornalismo que possa acompanhar a inevitável massificação do uso dos suportes digitais. Apesar dos estudos que dão o suporte papel como ainda sobrevivente (e até mesmo com futuro, em termos gerais e não apenas de nicho, o que me parece completamente absurdo), como por exemplo este, patrocinado pelo Regulador ERC (cuja amostra integra vasta percentagem de pessoas mais velhas, 1/4 do total com mais de 65 anos), interessa-me sobretudo prospectivar. Em tempos de mudança, e de uma mudança que será sem dúvida rápida, outra coisa não faria sentido.

1. Quando referi, nos textos sobre Jornalismo, o velho jornalismo, quero com isso designar não forçosamente os jornalistas mais velhos mas as velhas cabeças: todos os que não fizeram verdadeiramente a actualização que o advento da era digital e a Globalização exigem Isto é, todos os que encaram a Internet apenas como um novo suporte, transpondo para o online os modos de fazer jornalismo que usavam para o papel.

2. Isto é, não basta saber usar as tecnologias. Porque a mudança de paradigma não é só tecnológica. Quando se fala em paradigma (palavra que domina o discurso do tempo de transformação que vivemos) isso não significa apenas a substituição de uma tecnologia por outra. Onde a mudança mais se realizará é na percepção do Mundo, e do lugar de Portugal nele. Esse lugar será muito pequeno para o Jornalismo português se o assunto central do nosso jornalismo continuar a ser Portugal.

3. No referido estudo (realizado em 2014), parte considerável dos inquiridos respondeu que privilegia os temas nacionais, o que não é de espantar, atendendo à idade da maioria. Basta, aliás, verificar quantos afirmam preferir a televisão como veículo noticioso. E no entanto, as televisões portuguesas são, ainda, as que mais atraso levam na divulgação da actualidade.

4. A nova realidade é que as notícias chegam primeiro ao Twitter e ao Facebook, sendo depois reproduzidas pelos sites dos jornais e rádios, blogs, e só depois chegam às emissões das tevês. De referir, já agora, o sobre-investimento das televisões em entrenimento, por vezes de cariz informativo. E o desinvestimento em jornalismo, até mesmo por parte de canais especializados em informação, que operam muitas vezes na mesma lógica dos agregadores de notícias na web. Permanecendo, na minha opinião, excessivamente focados nos temas domésticos – o que é paradoxal: quanto mais acesso existe à informação mundial, menos sabemos o que se passa no Mundo. Em Português, quero dizer.

5. Os despedimentos em massa de jornalistas ilustram o que digo. Os projectos em que trabalhavam assentavam em temas nacionais. Será preciso que os promotores dos novos projectos jornalísticos olhem para o Mundo actual com olhos de vê-lo, percebendo que a Globalização remeteu Portugal para um lugar ínfimo no panorama mundial. Haverá, pois, que construir um novo jornalismo, que assente não nos temas nacionais mas no único activo que o jornalismo português actualmente tem: a sua Língua, falada por 250 milhões de pessoas no Mundo.

6. O novo jornalismo de Língua portuguesa olhará para o Mundo todo (e não apenas para o mundo lusófono) e escreverá (e filmará, e gravará) sobre ele em Português, interpretando-o jornalisticamente à luz da nossa cultura, valores e ideais. Os temas nacionais serão apenas uma parte, necessariamente pequena. Os públicos que ainda existem focados nesse paradigma (o de Portugal como realidade central das suas vidas) lerão (verão, ouvirão) as notícias e os trabalhos de fundo sobre Portugal realizados pelos jornalistas. Mas o foco do jornalismo alargar-se-á, o que significa que vai ser preciso contratar jornalistas capazes não apenas de escrever notícias e de fazer reportagem ou investigação (não questiono a necessidade de manter todos esses géneros informativos) como também de ser editores.

7. Esses jornalistas deverão ser capazes de olhar para o caos informativo mundial (disperso pelas várias plataformas digitais online – jornais, televisões, rádios, Facebook, Twitter) e fazer escolhas de acordo com a linha editorial dos seus projectos. Essas escolhas, produzidas em qualquer Língua, deverão seguidamente ser traduzidas para Português (e aqui entram as parcerias internacionais). Assim, os novos projectos integrarão obrigatoriamente equipas de tradutores. Justificando-se, repórteres serão enviados aos lugares onde for preciso.

8. À redução dos custos com o jornalismo que o online trouxe – na verdade por motivos que se prendem antes de mais com a dificuldade em reposicionar o jornalismo português no contexto da Globalização -, seguir-se-á um necessário investimento em recursos humanos que abranja jornalistas, tradutores, programadores e desenhadores web.

9. O novo jornalismo feito por portugueses deverá ser capaz de se distinguir das práticas – infelizmente mais comuns – de alinhamento com os interesses de forças partidárias. Jornalismo não deve ser activismo. Se for, deixa de ser jornalismo para ser propaganda.

10. Em Espanha arrancou há dias um novo projecto online. A dias das eleições em Espanha, um novo jornal espanhol (online, apenas) oferece todas as suas primeiras parangonas a Rajoy e aos Ciudadanos. Dirige-o Pedro J. Ramirez, ex-director do El Mundo. Continua a pouca vergonha do jornalismo a soldo dos interesses do poder político. Não pode ser. Há certamente investimento que não provenha dos partidos e/ou das empresas que os financiam.

Está tudo por fazer.  Quando é que começamos?

Actualização a 30 de Janeiro de 2016: um gráfico a ter em conta.

Anúncios