30 de Novembro de 2015. Num plenário da empresa de Comunicação Social Newshold, proprietária dos jornais Sol e i, anuncia-se oficialmente o despedimento de 2/3 do pessoal. A tarefa é entregue a Mário Ramires, administrador-delegado e antigo jornalista. A seu expresso pedido, o plenário é gravado, e depois, também a seu pedido, o ficheiro áudio dessa gravação é disponibilizado online.

Atente-se no tom extremamente paternalista, autoritário, quase marcial, do orador sem escrúpulos. E no final os jornalistas (e demais funcionários, presume-se) batem palmas. Levados por uma retórica de estranhas qualidades, ouvem o inominável e no final … aplaudem. Mesmo tendo-lhes sido dito que 2/3 vão ser mesmo despedidos, aplaudem. Mesmo tendo concordado (aparentemente incapazes de confrontar o administrador-delegado com o enunciado inenarrável, talvez procurando evitar ser piegas…) em assinar um documento que dispensa a Newshold de apresentação de uma caução/garantia sobre créditos a haver, aplaudem.

Aplaudem, assim, com investimento pessoal grandemente incompreensível, um projecto de uma empresa em processo de descapitalização que, segundo anunciado por Ramires, apenas poderá dar trabalho a 1/3 deles, e sobre o qual nada sabem – apenas que a sua viabilização depende da sua boa vontade: prescindindo do direito legal de indemnização por antiguidade e oferecendo parte do valor dos futuros ordenados (entre outras cedências referidas pelo administrador).

Dizer também, já agora, que há 7 anos, quando os accionistas da Newshold investiram dinheiro naquele jornalismo, já não fazia qualquer sentido financiar projectos em suporte papel e no modelo de negócio sustentado na publicidade. E no entanto houve investidores. O que é que isto nos diz sobre a independência do jornalismo entretanto praticado? Um caso a requerer investigação. Por várias razões.

Adenda: um texto de leitura fundamental aqui.

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