Tal como se previa, a coligação PSD/CDS decidiu prosseguir com a impugnação política do Governo de António Costa. Aparentemente incapaz (ou conjunturalmente impreparada, hesito) para uma oposição digna, mergulhada num tormento anacrónico e sem relação com o tempo de hoje – eternizado até aos nossos dias por ressentimentos resilientes e jamais resolvidos – a PàF insiste na bandeira da ilegitimidade da maioria parlamentar convergente que tornou possível o XXI Governo.

A iniciativa de apresentação de uma moção de rejeição ao programa do actual Governo nada teria de especial se não constituísse uma sequência lógica da comemoração que o PSD e o CDS insistiram em realizar no parlamento português a 25 de Novembro passado. Uma efeméride a que António Ramalho Eanes se furtou, ciente de que o contra-golpe levado a cabo a 25 de Novembro de 1975 foi o resultado do golpe ocorrido a 11 de Março desse ano, que foi quanto a ele entretanto o resultado do 28 de Setembro do ano anterior. Ciente, também, de que pôr o 25 de Novembro no mesmo plano de memória que o 25 de Abril é um absurdo.

E escrevo-o apesar de pensar que nisso tem também grande responsabilidade o PCP, por ter tratado o PREC como uma ideia de apogeu democrático e feito do 25 de Novembro um assunto tabu.

Seria bom ultrapassar isso. De um lado como de outro.

Enunciada, aliás, como uma forma de combater o que a PàF insiste em encarar como um executivo ferido de ilegitimidade democrática, a moção de rejeição da direita, assim apresentada, transporta um lamentável legado a requerer urgente saneamento da actual vida política. Saneamento como cura, quero dizer. Saneamento para dizer superação.

Na democracia portuguesa cabe também o PCP, tal como enunciado no desfecho do 25 de Novembro, justamente. Um lugar que tem a legitimidade histórica conferida não apenas pela tenaz resistência que fez à ditadura, como também pela participação dos comunistas na vida política do país desde 1975. Um lugar que tem tido sobretudo expressão nos poderes locais que conquistou (circunstância que o CDS não conheceu, diga-se, já agora, em abono da realidade dos factos), e a que agora o PCP acrescentou a decisão de viabilizar parlamentarmente o Governo do PS.

“Um tempo novo”, como anunciado por António Costa no discurso de tomada de posse, com que o PSD e o CDS terão nalgum ponto de começar a lidar com maior elevação democrática.

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