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(c) Barbara Kruger, 1984

Os títulos da imprensa portuguesa sobre as pessoas que compõem o XXI Governo constitucional são o espelho de uma sociedade preconceituosa e segregadora das minorias. Que me lembre assim de repente, três jornais intitularam com recurso a frases que transportam esse racismo. No Expresso (dito jornal de referência), num perfil do Secretário de Estado das Autarquias, relevou-se para o título o facto de ser de origem cigana – tema que aliás, surpreendentemente, domina o texto.

No Jornal de Negócios, a propósito dos secretários de Estado do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, colocou-se num mesmo plano a formação académica de dois secretários de Estado e a deficiência de um outro: «Uma economista, um sociólogo e uma cega ao lado de Vieira da Silva». Mais tarde, na sequência da indignação de muitos expressa nas redes sociais, alterou-se o título acrescentando a palavra jurista aos “qualificativos” escolhidos para apresentar a Secretária de Estado da Inclusão. Mais: numa nota editorial em adenda à alteração, remeteu-se essa escolha para uma entrevista publicada noutro jornal (o Público), afirmando ser essa a palavra preferida da Secretária de Estado, em detrimento da palavra invisual.

Finalmente, e fazendo jus à sua já longa tradição na arte de intitular sem olhar a meios, o Correio da Manhã apregoou que «[António] Costa cham[ou] cega e cigano para o Governo» – aproveitando ainda para lembrar os laços de parentesco que unem entre si alguns governantes do novo executivo, numa clara e maliciosa sugestão de nepotismo que antecedeu a própria tomada de posse (!).

Lamentável jornalismo a que o anterior Governo deu gás, capturando-o para o discurso neoliberal em que vale tudo. Um discurso que ajudou o executivo de Passos e Portas a manter-se no poder, mediante uma instrumentalização cerrada e continuada da opinião pública que, como se vê pela amostra de títulos infelizes, em nada serviu nem a democracia nem o jornalismo.

Assim, de facto, não é de admirar que a maioria dos comentadores nas redes sociais e caixas de comentários dos jornais e blogs portugueses considere o 4º poder como um poder ilegítimo. Sucede que ele é na verdade fundamental às democracias. E que é justamente porque o 4º poder tem sido privado de escrutinar com independência os demais poderes que somos (ainda) dominados por uma imprensa sem qualidades – mandada por gente comprometida com interesses de sectores específicos da sociedade (partidários, económicos, financeiros) e obedecida por ignorantes da deontologia do jornalista. Como dizia Salazar numa sua famosa sentença: manda quem pode e obedece quem deve.

Actualização #1: Concordo com o que escreveu Bárbara Reis, directora do Público, sobre Francisca Van Dunem, a nova Ministra da Justiça. O assunto deste texto é contudo outro, e tem sobretudo a ver com a falta de qualidade do jornalismo português (globalmente considerado) que reduz a apresentação nos media de ministros diferentes dos habituais (por serem ou negros, ou cegos, ou de origem cigana) a essa diferença – que deve sem dúvida ser dita (noticiada, no caso).

Actualização #2: Concordo também com o que escreveu Fernanda Câncio no Diário de Notícias. É muito bom que o XXI Governo tenha finalmente pessoas que, sendo diferentes da maioria prevalecente, são iguais a tantas que existem na sociedade portuguesa. Fazer jornalismo é dizer. Mas dizer não deve ser discriminar, que é o que considero que fizeram os jornais que referi, movidos por um impulso de oposição à nova solução governativa antes mesmo de o Governo iniciar funções.

Actualização #3: É de racismo e de integração que querem falar? Então façam reportagem sobre a vida dos excluídos. Eu faço. Um exemplo aqui. Outro acoli (com uma entrevista em bónus). E já agora mais este.

Actualização #4: Patrícia Fonseca na Visão sobre «Por que é que ainda se escrevem notícias sobre cegos, negros ou ciganos no governo?»

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