passos_rua

Um dia voltei para casa com um papel onde estava escrito PASSOS RUA! Como me parecesse importante – e até mesmo imperativo – que o objectivo fosse algum dia cumprido, se possível mais cedo que tarde, colei esse papel na parede da cozinha – para não esquecer, acaso viesse eu a ser embalada pela máquina de adormecer a consciência, que porventura me fizesse cegar para a desolação em que vi Portugal cair.

Sucedeu nesse momento um regresso a um outro tempo, um tempo de silêncio e de sofrimento, tempo miserável e anacrónico marcado pela deserção de tantos, e remetendo-se a restante maioria a uma negação do real (para dizer a realidade comum), muito embora contrabalançada pela catártica indignação de outros – apesar de apenas visível nos fóruns mediáticos de vomitar a náusea e o mal-estar, sobretudo depois da demonstração de força que constituiu a brutal agressão (ao povo indistinto ali reunido) ocorrida a 14 de Novembro de 2012 junto à Assembleia da República.

Assim se foi levando, e em certa medida resistindo-lhe, o empobrecimento infligido à gente de um lugar a que a corrupção de Estado e interesses instalados por tão longo tempo manteve “em vias de desenvolvimento” – formulação entretanto desaparecida, é certo, devido a imperativos transnacionais com que a coligação do Governo agora finalmente ultrapassado se havia comprometido.

O tempo passou mas Pedro Passos Coelho não passou. O seu mandato eternizou-se, como se determinado por forças transumanas empenhadas em infernizar a vida a um povo, (des)tratando o seu país (território, riqueza, História, memória, cultura, democracia) como uma empresa a cuja falência nenhuma política pudesse acorrer. Na cozinha, mimetizando o que sucedia no País, o papel azul eternizou-se também.

Mudámos de casa e o papel seguiu connosco, enfiado numa caixa de papelão. Chegados à nova casa, pespegámos o papel na parede da nova cozinha. Ali ficou por outro tanto longo tempo, inútil como algo sem alternativa. Comecei a colar nele os pequenos selos encontrados na fruta certificada.

O tempo passou e a frase quase desapareceu por detrás da trincheira formada por dezenas de pequenos autocolantes de maçãs, pêras, etc. Fomo-nos abastecendo de vitaminas, única forma de resistir ao Governo de Pedro Passos Coelho.

Hoje é dia de finalmente mandar o papel azul para o lixo. Foi difícil, muito até, mas Pedro Passos Coelho foi mesmo posto na rua. Não na rua do povo, onde não tem um lugar, mas na rua metafórica do poder que lhe foi democraticamente subtraído por uma maioria parlamentar sustentada numa inédita (e até tarde julgada improvável) união da esquerda em Portugal.

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