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Lembro-me bem de quando, em nome de um Estado laico, foi decretada em França a proibição dos signos religiosos na escola pública do país. Sucede que desde então o sentimento religioso ganhou novas formas. Se os árabes pais e avós das jovens que agora escolhem vestir burkas ou quase-burkas procuraram integrar-se, num tempo histórico que foi propício a essa integração (pós-Guerra da Argélia, que – já agora refira-se – o Estado francês se obstinou em designar até 1999 por “operações de manutenção da ordem”), com as novas gerações as coisas têm vindo a mudar.

De tal forma que a integração se transformou num paradoxo: as novas gerações, de pessoas nascidas já em França, sendo em quase tudo francesas, enfiaram para dentro de si um sentimento religioso que não era integrável numa sociedade dessacralizada. São os netos em diáspora à procura da sua identidade profunda, mediante uma imersão disforme nos fundamentos que é um espelho de um outro integrismo: o de uma sociedade supostamente assente em valores cristãos mas na realidade dominada pelo pragmatismo ateísta.

Dizia Malraux que «o principal adversário da tolerância não é o agnosticismo, mas o maniqueísmo». É aí que ainda estamos (para dizer as sociedades ocidentais), nesse vazio onde germina o ódio, como em Calais neste momento – a cidade do acampamento da vergonha chamado La Jungle, onde moram 4.500 refugiados e para onde convergem cerca de 100 novos refugiados todos os dias. Uma região francesa onde a extrema-direita nacionalista e xenófoba de Marine Le Pen tem grande implantação.

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