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Max Ernst, Les apatrides (1940)

A senhora da secretaria da escola anunciou cruel:
Sem um documento de identificação válido não poderá fazer o exame.
Tínhamos tido uma trabalheira para arranjar aquele documento, que a senhora da secretaria, que jamais tinha visto algo assim na vida, se recusava agora a aceitar.
Este documento não serve, disse ela firme.
Não tenho outro, ripostei segura dos meus direitos.
Diga à mãezinha que venha à escola, disse a senhora da secretaria.
Este documento não serve, repetiu ela. O que a menina precisa de trazer é um bilhete de identidade de cidadão nacional. A menina é uma cidadã nacional, não é?
Eu não sabia se era uma cidadã nacional. Se ser um cidadão nacional era ter um documento onde isso estava escrito, então eu não era um desses cidadãos. E no entanto, no meu coração, ainda tão jovem, eu era alguém que trazia já o país todo dentro de si, falando perfeitamente a Língua dos seus autóctones e sofrendo com eles as agruras do isolamento que parecia fazer de todos refugiados – refugiados na sua própria terra, de onde apenas se era com orgulho se estando fora, longe, na pátria mental onde se podia ser português sem demasiadas dores.
No meu documento, tudo o que havia escrito era sobre refugiados e apátridas – condições que eu também não sabia o que significavam, mas que se aproximariam decerto mais da minha. Eu era uma refugiada. Ou então uma apátrida. Uma convenção assinada em Nova Iorque nos anos 50 dava-me esse direito: o de ser uma refugiada. Ou então uma apátrida. Como ser uma refugiada me parecesse um estatuto demasiado agreste para uma jovem rapariga (que ainda por cima não tinha fugido de lado nenhum), escolhi ser uma apátrida. Uma pessoa apátrida era um cidadão do Mundo, alguém sem pátria, porém com direito a pertencer ao Mundo. Senti-me investida por essa qualidade estranha, mas que me pareceu perfeitamente digna e até mesmo superior. Eu pertencia ao Mundo inteiro. Já a senhora da secretaria era apenas de Portugal.
Sou uma apátrida, disse à senhora da secretaria, que ficou a olhar para mim com cara de parva, silenciando enquanto procurava integrar no entendimento aquela palavra nebulosa.
Isso não é nada, disse ela baralhada. Apátrida? O que é isso? Em Portugal não há cá disso. Esse documento que a menina tem veio do estrangeiro, até porque está escrito em estrangeiro. Nesta escola não aceitamos documentos estrangeiros. A menina vá mas é falar com os paizinhos e volte cá com o que lhe é pedido.
Tudo se resolveu graças a uma cunha. O meu documento, até então imprestável, acabou por ser aceite. E enquanto esperei por uma nacionalidade (um direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos do Homem, várias vezes o repeti à senhora da secretaria), fui portanto orgulhosamente apátrida. Como Anne Frank, a minha heroína na época.
A identidade era um assunto tramado. Às vezes era preciso escolher ficar sozinho, não pertencer, ficar de fora. Mas, se para a generalidade (a dos que tinham pátria), ser apátrida era ficar à porta, do lado de fora, ali a pedinchar para que a abrissem, para mim, ser apátrida era espantosamente ser do Mundo –  ser do Mundo inteiro, ser de cada retalho de terra da Terra, de um qualquer, e isso não ser um problema, muito pelo contrário.

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