acusar

Ficaram com os ódios e as raivas ali a arderem-lhes. Os ódios muito bem guardados para grandes vinganças vindouras que o destino pudesse favorecer. Escondidos nos sótãos fechados à chave dos seus espíritos, entrar neles dava cabo até mesmo de quem mal sabia por que razões, e embora ainda ardentes, haviam ali sido escondidos. As raivas debaixo do tapete, de onde contudo por vezes saíam, como cabeças de hidra que nenhum hércules pisava para não debelar numa só cabeça que fosse o que fôra guardado com tanta estima há mais de 40 anos. Ovos disso haviam eclodido aos milhares.

Nasceram novas pessoas e foram-lhes ensinados esses ódios e raivas. Quando atingiam uma certa idade, alguém mais velho levava-as lá acima ao sótão e, apontando para o que estava tapado com grandes panos que ninguém levantara desde que lá haviam sido postos, diziam

Estão ali.

Mostrado o esconderijo, apressavam-se a descer, procurando fugir das recordações que logo começavam a invadir-lhes os pensamentos. Dos tapetes escondendo os mais pequenos sentimentos torcidos, limitavam-se a informar

Não se varre ali debaixo nem se aspira.

As novas pessoas assentiam e não se falava nunca mais no assunto.

As novas pessoas não compreendiam muita coisa sobre o que se havia passado nesse outro tempo, como não compreende muita coisa sobre o passado recente quem não viveu em dias anteriores à sua própria existência. Sem surpresa, as novas pessoas tratavam os ódios e as raivas com o excesso de quem não os gerara, e por isso não os sofrera. Tudo na forma que os ódios e as raivas tomavam nas suas bocas era desproporcionado, apenas tendo interesse para estudiosos das transferências.

No lado oposto do patamar, havia um outro tapete, no acesso a uma outra casa, no acesso a um outro sótão. Eram o tapete e o sótão do vizinho, sobre quem um dia, se o destino o permitisse, se lançariam enfim os ódios e raivas do lado direito.

Gerado por tanto desejo, esse dia chegou, e as novas pessoas cavalgaram cheias de raiva e de ódio em direcção à casa do vizinho. Bateram à porta como se fossem rebentar com ela, e quando finalmente o vizinho a abriu, deparou-se com aquele exército de velhos ressentimentos e acusações anacrónicas.

Apesar de ser também ele uma nova pessoa, nascida depois dos acontecimentos sobre os quais nunca mais ninguém falara (e que por essa razão o tempo transformara num monstro), o vizinho foi sumariamente agredido com estranhas sentenças.

Administrador do condomínio só serás por cima do meu cadáver!

Ouviu-se então o som de alguém a falar no sótão da casa agora invadida por espectros. Era o avô do vizinho, a lutar com os seus próprios fantasmas, no sótão como debaixo de um temporal, fazendo oposição às fortes rajadas e bátegas com um capacete e um elmo que tinha trazido da URSS.
[originalmente publicado no blog Aventar]

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