«Venho da imprensa, foi nos jornais que me fiz jornalista, ou melhor dizendo, nas revistas semanais dos jornais e nalgumas revistas mensais – e falamos aqui portanto de um jornalismo reflexivo, de profundidade, para produzir texto longo, analítico, de valor testemunhal, memorial e também documental, por vezes literário, e não de notícias.

Assim, tenho procurado trabalhar, com a autonomia possível de um freelancer, os temas que considero mais importantes – os que, na minha perspectiva, mais justificam que eu faça sobre eles jornalismo. Nos últimos anos tenho feito quase só livros – uns sendo projectos meus, e outros que me pedem que faça – encomendas. Não se pense contudo que pelo facto de serem encomendas são produzidas de maneira menos conforme ao entendimento que tenho do jornalismo.

Tenho do jornalismo o entendimento de quem o encara como uma missão de serviço público. Quero dizer com isto que para mim, todo o jornalismo, independentemente da natureza da propriedade sobre os meios de comunicação social (justamente dita social), é uma missão. Ao mesmo título que um militar ou que um padre ou também que um médico têm ofícios de missão, isto é, funções especializadas e especialmente importantes a desempenhar na sociedade.

O que explica, aliás, que o jornalismo tenha o seu próprio enquadramento ético, plasmado no Código Deontológico do Jornalista, que constitui o seu juramento de Hipócrates. O projecto jornalístico que tenho procurado levar por diante tem não só os pés bem assentes nesse auto-enquadramento deontológico, como no imperativo de cobertura continuada dos chamados “grandes temas de sociedade”.

Significa isto também que há no jornalismo que me interessa fazer a preocupação de tratar das coisas ocultas, das menos visíveis, e muitas vezes aparentemente pouco mediáticas. Por vezes, das coisas que não interessam ou que não são abordadas por outros jornalistas – porque estão na vertigem da informação noticiosa, constrangidos pela actualidade, por horários e por hierarquias (amiúde totalmente desadequados à prática do jornalismo tal como a concebo), e não têm condições de existência como jornalistas para reparar ou para pensar em certas coisas – e consequentemente de levar essas coisas para o seu jornalismo.

Para fazer o jornalismo que me tem interessado é preciso andar na rua, conhecer o povo, saber como vive, ouvi-lo, viver e conviver com ele para poder ser a sua voz: é preciso, em certa medida, pertencer-lhe, apesar do olhar simultaneamente distanciado sobre ele que caracteriza a posição do cientista, neste caso do cientista social que é para mim o jornalista.

Por outro lado, à minha visão e práticas próprias não é alheio o projecto literário que prossigo. Em certo sentido, posso então dizer que tenho construído um projecto jornalístico de autor, digamos assim. É porque sou jornalista que sou também escritora, e é porque sou escritora que posso continuar a ser jornalista – na perspectiva, também, de poder dar contributos heterodoxos para um enriquecimento do jornalismo, sobretudo num momento especialmente difícil como aquele que presentemente vive o jornalismo. Serão estes, porventura, os seus piores dias.

E nessa sua nova configuração, o jornalismo tal como o concebo tem muitas dificuldades em ter um lugar – não por causa da revolução digital, nem por causa dos novos modelos de negócio que neste momento se tentam para o jornalismo, mas, sobretudo, na minha opinião, por causa da dificuldade que o jornalismo tem em ser um efectivo escrutinador dos poderes e um espelho verdadeiro e tão amplo quanto possível da sociedade (e não apenas de alguns sectores dela, como sucede com alguns títulos ditos “de referência”).» | S.A.

[excerto da comunicação proferida por ocasião da oficina de formação avançada Trauma e media, organizada pelo Centro de Estudos Sociais no âmbito da 2ª edição do Curso de Formação em Psicotraumatologia | 7 de Novembro de 2015]

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