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Esta tarde, em Lisboa, na Rua Augusta dos turistas de pé descalço da Europa, mas também dos brasileiros e dos angolanos cheios de grana. Africanos a dançar como loucos uma zumba qualquer que mobiliza centenas de pessoas reunidas em torno de uns rapazes possuídos por um frenesi ancestral, distante e no entanto ali, à mão de semear da alegria, à distância do desejo dela.

Os descendentes do Império ali na Rua Augusta, na Lisboa mulata, a dançar para os europeus, para os brasileiros, para os angolanos, a dançar para fazer uns cobres, para ganhar a vida. Dançam uns com os outros e depois com o público, e a batucada enche de alegria toda aquela gente com falta dela, mesmo quando há dinheiro para consumir nas lojas da Rua Augusta. Dançam assim e todos os outros artistas da rua desaparecem: os sul-americanos das flautas dos Andes tocam em play-back para ninguém, um homem-estátua imobiliza-se rigorosamente para ninguém, pois todos caminham dançando em direcção aos blacks, e à alegria superlativa e contagiante dos seus corpos possessos.

E penso, enquanto sinto o meu corpo a querer dançar, levado pelo ritmo e pela comunhão, que o Portugal africano é eterno.

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