Eu caminhava em direcção ao sonho, o corpo a pedi-lo e ao lume quentinho de chamas lá mais à frente, a cabeça com os pés frios já a tirar as meias encharcadas para as secar junto a essa fogueirinha ali a reluzir ao alcance do pensamento, um arrepio como uma espada de separar a deixar ao esquecimento o que era do esquecimento, e a levar para o infinito o que era do devir, gente do futuro a sorrir para mim de braços abertos e a dizer vem – eu a ir. E eis que, vinda de algum caminho de cabras, nem dei conta, uma insónia saltou disparada pela inquietação e caminhou comigo durante horas. Virei-me várias vezes para a descobrir mirando-me provocadora do outro lado. Virei-me ora para lá ora para cá, e sempre os da insónia ali a olhar-me, de olhos enormes e pantanosos, nos quais os do devir poderiam facilmente naufragar. Levantei-me e tudo cessou, mas no corpo moído pela insónia a memória desse combate murmurou a sua cantilena dissonante. Felizmente pude avistar lá mais adiante uma orquestra de alegria a convidar-me para uma dança de aquecer muito os pés a ponto de tirar os sapatos, e o murmúrio da insónia dissipou-se até ser nada.

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