(1936) Stanley Spencer-Self portrait with Patricia Preece (F
Stanley Spencer, 1936

Há um pequeno texto de Philip Roth cujo título emana de uma linha poética de Yeats, «o animal moribundo». Mesmo lido noutra língua, o texto é muito bom, porque é muito bom à partida, porque Roth é um enorme escritor, unicamente interessado na verdade, e capaz de ser o espelho da nossa humanidade ridícula (e ele adora a palavra ridícula, porque não esquece a dimensão ridícula de cada homem a tentar ocultar o seu animal). E depois, e embora não precisasse de sê-lo para ser um grande escritor (pois a arte não precisa por vezes disso), é muito culto, cheio de cultura musical erudita e de pintura nos olhos, tal como também a melhor literatura vive nele com a vivacidade de quem a transporta dentro de si. O que Roth escreve em O animal moribundo sobre a dimensão destrutiva do desejo amoroso e dos laços afectivos (sem esquecer a conjugalidade, onde a destruição é quase sempre fatal) é o retrato chapado da nossa pequenez ridícula. Um pequeno grande livro que entristece e inquieta, como Proust, mas à americana, ou como Thomas Bernhard, que também é capaz dessa profundidade, dessa mesma verdade, porém numa sua versão europeia, mais subtil, com saudável ironia, o que nos ajuda a ir pelo texto – um riso que paira sempre sobre ele, por cima dos nossos olhos que leem – e para além dele.

Um pequeno grande texto infelizmente muito mal traduzido e editado – mal revisto, cheio de problemas gramaticais grosseiros e essas coisas que ferem a minha leitura. Roth merecia em Portugal melhores editores.

ROTH, Philip, O animal moribundo (de 2001), na colecção de bolso da Leya (2013)

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