liseur
Antoine Martinez (1913–1970)

Aquele velhote chamado Marcel que tinha ido ajudar o sobrinho Francis e a mulher dele (Madeleine!) na vindima. Esse velhote pândego e brejeiro a tratar-me por Marguerite, «Marguerite des Champs» para dizer a flor que eu era e que ele teria colhido se fosse então ainda rapaz novo. Esse velhote do Languedoc a falar na Língua cantada e antiga daquele lugar da Occitânia onde me fixei brevemente para ser Marguerite – Marguerite des Champs de nome completo, «Deschamps Élysées» quando Marcel evocava Paris para dizer tudo o que nos separava para além da diferença de idades.

Marcel como Proust mas sem livros, mas sem a consciência aguda da arte literária, mas sem precisar de ser salvo pela leitura, mas sem poder reparar na eternidade de grande mistério do que se passa entre a voz que lê e a existência do corpo que a transporta, mas sem perturbações poéticas ao atravessar a paisagem da vinha, a vinha só vinha, o mistral só vento, apesar de todos os que enlouquecia. Marcel poupado ao silêncio transcendente da leitura e à incitação metafísica da comunhão sem constrangimentos espacio-temporais entre um que escreve e um que lê, abandonado à cegueira benfazeja que deixava o seu espírito em paz.

Marcel mais Pagnol, sem a avidez nos olhos dos que atravessam as várias camadas do silêncio para além das quais se agita o génio do desassossego que vive dentro dos livros, ignorando esse lugar de inquietação encafuado nos interstícios das palavras que Proust percorreu com fervor crescentemente religioso, através da sua própria experiência do que foi ler: procura, encontro, salvação. Marcel sem procurar mais nada a não ser pousar os olhos nas belas raparigas, sem precisar já de encontrar o que quer que fosse, nem de ser salvo de coisa alguma. Marcel.

Como poderia eu ter sobrevivido ao frio de Thomas Bernhard sem a cura de alimentos terrenos e sensuais de Gide – o Gide-editor que viu em Proust um snobe sem literatura? Como voltar a Duras se não houvesse Camus? Como regressar a Lautréamont e a todos os que me mostraram as formas múltiplas do sofrimento humano se não puder esquecê-los lendo outros que mostram outras coisas?

Um retrato vivencial do que pode ser um leitor está na explicação límpida de Proust escrevendo sobre a disciplina curativa da leitura, «um mel preparado por outros» (mas por vezes um veneno), que nos religa ao prazer de existir (mas por vezes ao desgosto) e nos leva pela mão das palavras através dos meandros do coração de uma civilização, de uma cultura, que é uma Língua fixada pela literatura.

PROUST, Marcel, Sur la lecture, Librio Littérature, 2013

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