Volto ao bar do Sérgio e a esse exercício disfórico que é deixar atrás de mim a tarde ainda tão diurna para entrar a meio dela na escuridão de um bar. Outros já lá estão, companheiros do primeiro jogo, cumprimentamo-nos como náufragos que se reencontram numa gruta sombria para fazer juntos qualquer coisa  ilícita. A rua fica de novo subitamente deserta, a tarde outra vez suspensa durante o tempo de um jogo de futebol que é muito mais do que um jogo de futebol. Naquele jogo joga-se a ideia de um país. Quantas expectativas há nele depositadas, como apostas delirantes jogadas em favor de uma ideia de grandeza cuja comunhão apenas através dele se realiza? No bar do Sérgio temos todos fé, ou não fôssemos nós portugueses. A palavra milagre anda por ali perto e queremos todos ser testemunhas desse fenómeno extraordinário que premeia os crentes.

Bebo um copo de vinho, como qualquer coisa para mais logo poder enfrentar o que resta da tarde, e uma vez mais não ponho o lenço de ir à guerra – por medo de não ganhá-la, naturalmente, e de ficar desse modo ainda mais ridícula. Num estádio que faz justiça arquitectónica à Brasília de Niemeyer mais de 65 mil pessoas assistem in situ à guerra, enquanto nós, coitados, só temos a imagem desse lugar distante e do que lá acontece. Os gritos de guerra lançados em uníssono por aquela multidão sentada na bela arena contrastam com o silêncio da nossa rua sem modernidade nem vivalma. Estamos ali mas somos de lá, da arena Mané Garrincha, herói brasileiro de outras copas. Estamos ali mas é como se estivéssemos lá, e sendo preciso até os comemos, como andámos por aí a ladrar e estamos prontos para cumprir.

O jogo começa e também os comentários racistas normalizados que me envergonham, ditos com a naturalidade dos herdeiros do colonialismo que não lhes morreu ainda. Um auto-golo de um jogador do Gana torna tudo ainda mais agudo. O jogo prossegue e começa a correr mal: atacamos então os jogadores brancos da selecção portuguesa. Ronaldo nem sequer parece o melhor jogador do Mundo; apesar de finalmente reunidos na melhor combinação, os portugueses estão todos esfrangalhados (frangos + escangalhados); Paulo Bento não deu conta do recado; e como se não bastasse, Beto choraminga ali à frente do Mundo como um piegas. Não se aproveita um, resmungamos, afinal era só garganta, presunção e água benta.

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