Ponho o lenço com a bandeira nacional que comprei no chinês em 2004 e vou ser portuguesa com os portugueses, sofrer com eles por causa de um jogo de futebol, ser uma igual, apesar do olhar deles pousado na minha excentricidade de mulher amalucada naqueles preparos, a minha portugalidade por um fio, a minha estrangeirice toda à mostra, que as mulheres verdadeiramente portuguesas da minha idade não são bem assim, nem vão sozinhas ver futebol para os bares a meio da tarde. Peço uma mine da marca Sagres pois parece-me ser mais portuguesa. Sento-me na obscuridade, quero lá saber da  luz da tarde, e preparo-me para ter a cabeça quente. Lá fora na rua não há vivalma, a semana ainda agora começou e já parece no fim.

Ponho o lenço, bebo a mine, como tremoços, enquanto 50 e tal mil pessoas numa arena no Brasil se transformam em selvagens, ali à minha frente, no écran gigante do Sérgio. Estou em Roma a beber uma Sagres e a comer tremoços enquanto os bárbaros rosnam. Um homem chamado Mueller (ou talvez seja Müller) marca três golos, dois sem glória, só sorte macaca e um árbitro subjectivo. Outro homem, um Hummels ubíquo, desmultiplica-se nesses todos do seu nome plural e faz o resto. Quatro golos. Já não quero mais nenhuma mine e até me apetece tirar o lenço. Talvez tenha dado azar, sabe-se lá. Saio para a luz do fim da tarde que parece ter ficado suspensa, e é outra vez Segunda, apesar dos homens desolados com quem me cruzo na rua, a semana ainda mal começada e eles já tão tristes.

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