Uma manhã!

Uma manhã antes da morte e depois dela,

outra, ou a mesma que bate no poema do poeta,

essa cuja luz entrevês pela frincha da noite,

e recebes por momentos julgando-te a única,

mas sabes que não, que antes de ti já o poeta,

e também o autocarro da manhã (o dela, nota)

passou com grande natural,

ao mesmo tempo que alguém caminhava lá fora,

os passos já na manhã (já nela, vê bem)

a ecoar sonoros na calçada ligando um antes e um depois,

a manhã feita caminho, ou vereda, ou destino

– para ela tanto faz.

 

O vento e a chuva precipitando-se sobre a manhã,

como os passos ecoando mas sem passar,

mas sem caminho,

mas sem futuro,

a cair na própria manhã,

despenhando-se ali com grande aparato anti-matinal,

e o passante já lá à frente,

na sua fuga dir-se-ía até da manhã.

 

E mais ao longe,

com ou sem vento e chuva,

mais ao longe antes e depois de ti,

apesar de tudo

– e também de ti,

– e também daquele homem sentado na manhã a fumá-la,

mais ao longe na manhã,

na vertigem da madrugada dos que celebram a manhã antes da hora,

ao cabo dela com grande natural,

nascido da luz de que o passante foge,

o dia.

© Sarah Adamopoulos

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vereda In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-05-04].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/vereda>.
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