A «inteligência luminosa» de D. José Policarpo não iluminou suficientemente o espírito de um homem que era contudo sobejamente inteligente (e que tinha suficientes responsabilidades na construção social portuguesa) para se dever não ostracizar as minorias homossexuais, sobre as quais vários discursos seus se abateram, mesmo se nas entrelinhas de outras falas.

No rigoroso momento em que o parlamento (em que a sua maioria, numa corrida contra o tempo) volta à questão dos direitos da minoria homossexual, não deixa de ser curioso verificar que quase todos os blocos televisivos (e não apenas na RTP) que juntaram para freguês-votante ver algumas das intervenções públicas de D. José Policarpo, incidam sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, relativamente ao qual o antigo Cardeal Patriarca de Lisboa se pronunciou várias vezes com intolerância.

E no entanto gostava dele: não resisto a um homem inteligente. Lamento que não tenha sido capaz (que não tenha tido «a ousadia», para retomar palavras suas) de calar o lugar-comum do português preconceituoso que se outorga (através do Estado e/ou da Igreja) o direito de se meter na vida dos outros, para lhes negar direitos fundamentais, como o de se casarem, ou de adoptarem crianças.

Compreendo que o caminho da Igreja é estreito e longo, mas a Igreja é feita de homens e para eles, sendo certo que enquanto andarmos ainda nisto (de nos metermos onde não somos chamados, como por exemplo na vida dos outros) o caminho para o verdadeiro progresso humano será, como o da Igreja, longo. Não será já tempo de abrirmos o espírito à diferença e à aceitação (e não disse tolerância) do Outro diferente de nós?

Pois, eu sei, em Espanha já regridem também.

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