Volto às praxes, para falar da nova «geração-rasca» que os que se submetem às praxes – ou lá o que aquilo é – parecem constituir hoje. Tantos anos passados sobre o epíteto de Vicente Jorge Silva que na altura chocou tanta gente (os que não queriam ser rascas, os pais deles, e também os que não gostaram de ver assim tratada toda uma geração de jovens portugueses), a sociedade em peso volta agora a apontar o dedo aos mais novos para lhes dizer que eles não prestam.

Mas a verdade é que nem todos comem e calam, como talvez alguns gostassem, e que há mais novos que sabem perfeitamente quem são: os filhos e netos de outros, espelhos deles portanto, onde vejo tudo o que está debaixo do tapete denso de múltiplas camadas que é a sociedade portuguesa que não limpa a casa da história do século XX, cheia de pó e de fantasmas, e entre eles o fantasma-mor da miséria, um tipo horroroso e anacrónico, repressor e autoritário, paternalista e insuportável, e como se não bastasse, pronto para fazer os compromissos que forem precisos com o comércio de tudo e o materialismo absurdo que ainda domina o mundo dos homens.

Mas esses que não comem e calam sabem muitas coisas, e talvez a mais importante seja mesmo aquela que revela um sistema de ensino obsoleto, bafiento e desligado das suas aspirações, um sistema que eles bem sabem falido, e que não tem nada, ou muito pouco, para lhes dar (apesar do dinheiro das propinas que lhes tira, e às suas famílias). Basta observar o mal-estar da maioria, a revolta que calam numa mimese do silêncio constitutivo dos portugueses que são, e claro, aquilo em que estão transformadas as escolas, incluindo as faculdades.

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