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“Praxe, integração ou humilhação?”, eis o título de um debate que ontem teve lugar no Chá de Histórias, em Cacilhas, Almada, a pretexto da exibição do filme Praxis, de Bruno Cabral, que também esteve presente. Promovido pelo Bloco de Esquerda, compareceram os cabeças de lista pelo BE de Almada às últimas eleições locais, e uma quantidade jeitosa de público diferenciado – pessoas de idades e razões diferentes, que depois da exibição do filme quiseram falar, sobre o filme, mas sobretudo sobre o que o filme mostra e as aflige, como a mim: a sociedade humana que as praxes académicas revelam. Depois da sessão cinematográfica (Praxis é um documentário sem peneiras nem narração, mas que contém qualidades cinematográficas) muitas pessoas falaram. O que disseram? Que aquelas imagens as violentam, que as questionam, que não as deixam indiferentes, que querem fazer qualquer coisa para mudar o que viram. Alguém perguntou quem eram os pais daqueles estudantes universitários que aceitavam ser humilhados por outros – como se nos pais estivesse depositada toda a culpa, como se a educação doméstica não devesse nalgum ponto enfrentar e completar-se pela educação social, como se a família tudo pudesse, fosse tudo o que somos. Alguém se referiu às estudantes que o mar do Meco levou em Dezembro passado como “aquelas gajas que morreram”. Alguém disse a palavra tragédia. Alguém disse que se tinha sentido mal, que as imagens magoavam, que transtornavam. Alguém disse que já tinha sido praxado e que nem tinha sido assim tão mau. Alguém disse a palavra tradição. Alguém defendeu a criminalização da praxe. Alguém pediu um estudo transversal que o Parlamento não terá querido financiar – mas também, para que interessa um estudo oficial? Qual é a dificuldade de fazer um estudo sério independente? Alguém narrou uma brilhante síntese histórica e política das praxes académicas em Portugal. E todos pareciam perplexos, e alguns estavam revoltados, pois gente a começar a vida adulta não devia ser aquilo (pessoas a humilhar outras pessoas, o medo estampado no olhar dos subjugados, a obscenidade do exercício do poder discricionário, o sexo bruto em todas as palavras e gestos), que «gente deve ser bom», que «gente quer luzir», como cantou Caetano Veloso há muitos, muitos anos, com «estrelas no olhar» e uma alegria indestrutível (ao contrário da alegria de hoje, que a visão da humilhação naturalizada numa praxe que se diz integradora destrói), naquela época gloriosa dos 30 Anos Gloriosos em que íamos fazer um Mundo do caraças – e em Portugal também, ou aliás, em Portugal ainda mais que noutros lugares: aí reside parte da ‘inflação revolucionária’ de um golpe de Estado que já tardava, nessa descompensação escura e triste de uma sociedade repressiva, paternalista, e em que as praxes se confundiam com o próprio poder político, em que eram emanações dele.
E agora? o que se segue? O voto anti-praxe votado anteontem no Parlamento, para que serve?

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