António Zambujo canta Ary dos Santos e Tordo no Brasil

Hotel Babilónia é o nome de um programa de rádio que passa na primeira antena da rádio pública aos Sábados de manhã, apresentado (conversado) pelos jornalistas Pedro Rolo Duarte e João Gobern. São duas horas de rádio, e na segunda hora há um convidado que chega, alguém que se junta à conversa e em torno de quem ela passa a construir-se. Digo-o desde já: gosto especialmente de João Gobern, jornalista experimentado e inteligente, melómano de alguma da melhor pop, filho de Appio Sottomayor, cronista (já desaparecido) da minha Lisboa, benfiquista agora ligado ao futebol, integrando um painel de comentadores televisivos do chamado desporto-rei.

Esta manhã, um dos assuntos da primeira hora de conversa no Hotel Babilónia foi a saga dos Tordos – isto é, a recente partida de Fernando Tordo para o Brasil e a publicação da carta aberta escrita pelo seu filho, o escritor João Tordo. Não li a carta, mas li outras coisas por aí, e quase todas revelam a que ponto os então chamados «músicos de intervenção», que nos anos 70 enfrentaram o país analfabeto e medíocre (e designadamente no nacional-cançonetista Festival da Canção), ainda servem de saco de pancada para os ressabiados do regime deposto em Abril de 1974.

Quarenta anos depois, não é só José Afonso, músico, compositor e poeta genial, que continua relativamente na sombra (apenas o PCP tem tratado dessa memória) e a sua obra grandemente desconhecida. Outros músicos seguem a mesma sorte, como é o caso de Fernando Tordo – que ainda assim é autor de algumas das melhores canções compostas imediatamente antes e depois de Abril de 1974. E isto que aqui e agora escrevinho foi dito, com outras palavras, por Pedro Rolo Duarte na edição deste Sábado do Hotel Babilónia.

Lá está: enquanto houver quem se lembre (e nomeadamente os da minha geração, como Rolo Duarte e Gobern) bem podem chegar-se à frente os amargos e seus descendentes para denegrir com azedume primário (uma coisa passional/que só lhes fica mal) os que se fizeram homens na viragem do regime (Tordo foi um dos contribuiu para a sua queda, com canções desassombradas que desafiavam a Situação) que haverá sempre quem os enfrente para dizer outra coisa, por sinal mais verdadeira e mais justa.

(*) Hoje ouvi o actual Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, a anunciar ao povo mais «pancada» – assim mesmo o disse.

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