Tradição, palavra sagrada que geralmente designa a transmissão de uma prática pela sua reprodução, isto é, pelo exemplo da sua evocação concreta, sob a forma, por exemplo, de um costume. Primitivismo, a tradição faz o seu caminho de conservação do passado, indiferente a valores outros que a questionem, eterna como uma herança que se impõe com a naturalidade das grandes coisas a que nenhumas outras sucederam, por toda a sorte de razões, e entre as quais se inclui o desejo de preservá-las por serem boas.  E algumas são-no, boas coisas que importa preservar, para que a voragem do tempo não passe também por elas, votando-as a um indesejável esquecimento. Numa tradição cabe assim a eternidade, pelo menos até ver.

Esta manhã, alguém na rádio perguntava: como poderá a tradição da praxe académica ser actualizada – como torná-la conforme aos tempos? Esta pergunta é em si mesma absurda, por não ser jamais possível «actualizar» o que não tem tempo. Mas é também uma pergunta que não tem resposta (a não ser que se opte pela via da criminalização, o que pode tornar tudo ainda pior) por serem hoje as formas da praxe efectivamente conformes aos tempos. Da sua superação depende o sucesso da mobilidade socio-económica que a Universidade oferece aos que hoje podem pagá-la. Rituais tanto mais bárbaros quanto menos oportunidades de trabalho (e de realização profissional, já agora) houver para esses estudantes ao cabo da sua formação. E isso é que não há mesmo, pelo menos até ver.

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