agenda_mediatica_nacional

«Massacre», eis como adjectiva um amigo meu o que todo o santo dia passa nas tevês portuguesas, públicas umas e privadas outras, todas, dir-se-ía, incapazes de realizar a sua própria interpretação jornalística da actualidade noticiosa, ou seja, as suas escolhas editoriais, partindo de um universo que hoje é global, o que claramente não facilita a vida, mas é a vida – e também mais uma razão substantiva para agir doutra forma em termos jornalísticos, sobretudo num contexto europeu que pede uma constante reflexão mediatizada.

No centro do «massacre» está naturalmente a actividade governativa, ou melhor escrevendo, a representação oficial dela, sob a forma de conferências de imprensa, declarações dos governantes ao país, etc. Ora, sendo a representação oficial da actividade governativa o que o próprio Governo diz sobre o que fez ou pretende vir a fazer, assistimos a uma multiplicação dos canais por onde passa aquilo que se designa por propaganda – isto é, a propagação das ideias, opiniões, doutrinas que presidem à actividade governativa. Uma multiplicação de canais de difusão mediática de um determinado pensamento a que contudo não corresponde uma oferta diferenciada, constituindo portanto uma mera reprodução, várias imagens iguais de uma mesma coisa.

É claro que depois as tevês chamam os seus comentadores, de direita uns e de esquerda outros, a quem é pedido que façam a leitura dessas imagens. Dessa forma, o «massacre» estende-se muito para além dos directos televisivos, no decurso desses longos minutos, amiúde várias horas, em que os comentadores dissecam os temas levados para o espaço público pelos governantes. E o que aqui escrevo aplica-se em larga medida à imprensa, e também à rádio, fazendo do actual jornalismo um espelho único cuja imagem prevalecente é essa realidade paralela (sem correspondência com a realidade da maioria das pessoas) em que se movem os governantes e demais burocratas profissionais.

Mas a essência do jornalismo é outra coisa, e é evidente que essa outra coisa não pode ser assegurada por estagiários baratos e impreparados que ninguém tem tempo nem condições objectivas para formar, comentadores em interesse próprio (por vezes a soldo zero), e jornalistas e editores sem tempo para pensar: escolher, mostrar, denunciar, comparar, investigar, estudar, reportar, andar na rua, ir até ao fim dela como anuncia a TSF, compreender que sociedade integram e têm o dever de espelhar, de questionar, de construir, também.

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