Em que outro jornal português se não no Expresso poderia ler-se uma entrevista com um crítico literário (ou melhor escrevendo: sobre um crítico de literatura) verdadeiramente apaixonado pelos livros? Talvez no Público, é certo, mas gosto de encontrar no Expresso razões para lê-lo, bem como, imagino, todos quantos a quem pode interessar uma entrevista com James Wood, crítico inglês com quem Pedro Mexia conversou para produzir um texto jornalístico a que, com propriedade, chamou «Um discurso sobre a beleza». Interessado na beleza intrínseca de um texto literário – por oposição ao que faz a escola académica da crítica, cuja leitura da literatura transporta as preocupações analíticas (históricas, meta-literárias, técnicas, etc.) de que se ocupam os estudiosos literatos das universidades -, James Wood fala da beleza da linguagem literária como aquilo a que chama «um contrato com Deus e com a verdade» (contrato desfeito pelo modernismo, afirma).

Definindo-se como um «crítico estético e religioso», Wood fala dos livros e do que faz para ganhar a vida com o amor à sinceridade, à verdade profunda e ao compromisso com o seu tempo que move os maiores escritores – como por exemplo Virginia Woolf, Sebald ou Philip Roth, para referir alguns dos autores maiores citados pelo influente crítico inglês. E revela «uma espécie de mantra pessoal», uma frase de Henry James de que o seu espírito se apropriou: «O tipo de romance de que gosto lida com um presente palpável e íntimo.» Um presente reconhecível, confessional, desocultado pela escrita, e cuja forma é bela, isto é, escrita com as belas palavras cujo sopro harmonioso faz da literatura uma arte musical ao alcance de poucas vozes.

Uma entrevista cheia de ideias éticas e estéticas sobre o que significa escrever, uma boa surpresa contida na primeira edição do Expresso de 2014, apesar do português acordizado que torna a transcrição da conversa entre James Wood e Pedro Mexia bastante menos bela. E o acordês a que o Expresso se sujeitou com intrigante voluntarismo é realmente uma disformidade que se dispensava, sobretudo num texto de Mexia (que escolheu continuar a escrever as suas crónicas em Português) sobre a beleza da literatura.

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