2013 terá sido um ano muito difícil em Portugal, a partir de aqui, no chão frio sem ângulo para o futuro, viver, ser, será necessariamente construir, inevitavelmente acreditar – ah, essa palavra vaga cheia de promessas -, mesmo se acabrunhadamente, os olhos embaciados pelos vapores dos vagões, vagões, vagões anacrónicos que ininterruptamente teimo em ver, para exasperação dos que caminham transversos e avessos à História, onde «tudo é [naturalmente] «oblíquo e nada se conforma à rectidão»*), aqui no meu país de que não consigo ser decentemente, aqui na minha Europa que não reconheço minha (não era nada disto, pois não?), aqui no mundo com vista para a desolação, nesta Língua de onde vejo o naufrágio de tantos. Mas a dias de fechar este ano miserável, no dia em que uma vez mais se anuncia o nascimento de Jesus, amigos telefonam-me, dizem-me que estou no coração deles, digo-lhes que também estão no meu, queridos amigos cristãos para quem o Natal é o dia de dizer que não estamos sós.

 

* – W. Shakespeare, Timon of Athens

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