Apesar de estar retirado, Alexandre Soares dos Santos não se cala, e não se cala porque não há jornalismo, mas apenas e quase só propaganda, a que as tevês e os jornais se sujeitam com abjecto servilismo e ausência de perspectiva – crítica, cívica, histórica. As tevês e os jornais bem sabem que normalmente as declarações avulsas de Soares dos Santos não dizem nada que não saibamos já, mas também sabem que colhem bem junto da massa acéfala de emigrados para um passado próximo dentro de si. Por isso aceitam ser porta-vozes dessas declarações do Santos dos supermercados, por isso aceitam fazê-lo sem mais trabalho nem contraditório. De tanto em tanto tempo, cumprindo um calendário de fantasma obstinado em infernizar-nos pela retórica decadente, esse imperador do retalho merceeiro português, de impostos pagos na Holanda, chega-se à frente qual senador da Nação para mandar as suas postas de pescada deficientemente refrigeradas: pede consensos impossíveis, ao mesmo tempo que exorta os portugueses a que escolham de uma vez por todas entre o socialismo e o capitalismo (como se eles, que são uns miseráveis, pudessem escolher o capitalismo), insurge-se contra os processos democráticos (fá-lo com cautelas discursivas, mas sempre vai dizendo que o que faz falta aos portugueses é “uma democracia musculada” e que “não podemos estar constantemente a mudar quando há eleições”) e avisa que vem aí a guerra, como se o que está a acontecer-nos não fosse já a guerra, ele que é um especialista dela. Por que não se cala? Porque quando chama os jornalistas eles lá vão, porque lá vão mesmo quando não são chamados, porque o jornalismo se recusa à sua função na sociedade e dá espaço a alguém que não tem nada para dizer, coisa alguma de relevante com que contribuir, a não ser as balelas e lugares-comuns habituais que de modo algum merecem o espaço público que lhes é oferecido.

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