taureau_copyright_jean_baptiste_darrasse
© Jean-Baptiste Darrasse

Gostar do Mundo como ele é, exortou Hannah Arendt, amá-lo assim mesmo, cheio dos defeitos humanos que fazem germinar infernos no paraíso terrestre. Não é fácil. Quando se passou grande parte da vida já vivida a acreditar tão absolutamente nos homens (apesar de todos os espelhos que o jornalismo me tem estendido), a realidade surge hoje sobredimensionada, transfigurada numa quase antítese do que anteriormente era visível. O desfile constante de horrores sucedeu a essas visões generosas e enche de desolação o meu horizonte interior. Quero amar esse filho que se julga imortal e não percebeu nada, mas a virulência da sua estupidez dá cabo de mim.

Perplexa, recordo então aqueles diabos de um livro que na infância visitava secretamente quando jogava a ter medo, uns tipos magrinhos de unhas compridas e dentes afiados que serviam para atemorizar-me. Alegorias do que hoje encontro nos homens, antevisão infantil do que hoje vejo com horrorosa nitidez, o que representam essas figuras diabólicas que em criança descobri num torvo dicionário do mal, habita afinal os corações humanos, consubstanciando-se nas suas acções malévolas ou cúmplices desse mal. Respiro fundo.

Tal como Arendt, não posso esquecer os que calam, ou olham para o lado, ou assobiam para o ar. Vejo nessa cumplicidade tácita o mesmo movimento interior que faz com que outros ajam em nome de interesses particulares que não olham a meios para atingir fins desprovidos de qualquer grandeza humana, e amiúde portadores de sofrimento para outros que jamais conhecerão. Nenhuma lei, preceito hierárquico ou regra idiossincrática torna essa cumplicidade melhor.

Anúncios