homem bala 1948

A senhora doida que fala sozinha,
o homem que leva o gás a casa,
o responsável da loja dos junkies,
a rapariga triste da caixa do supermercado,
o funcionário da companhia das águas,
a empregada sem dentes do café,
o velho que passa o dia na tasca,
a senhora antipática da frutaria,
a cozinheira da cantina social,
a professora contratada do liceu,
o reitor da universidade,
o carteiro a recibos verdes,
a rapariga do museu,
o caixa do banco,
o vizinho do andar de cima,
o dono do restaurante,
a rapariga deprimida do call-center,
o professor universitário com mais de 300 alunos,
o homem dos frangos assados,
a empregada da boutique,
a dona do cabeleireiro,
a irmã da desempregada que se suicidou,
o estudante da faculdade que toma antidepressivos,
o investigador sem investigação do instituto público,
o bolseiro sem bolsa,
o inspector da ASAE,
o funcionário dos CTT que vai ser despedido,
o guarda-prisional revolucionário,
o polícia de segurança pública,
o guarda da GNR,
o funcionário do SEF,
o presidente dos patrões,
o inquilino do rés-do-chão,
o senhorio dos meus amigos,
o motorista do autocarro da Carris,
a manicure das unhas de gel,
a depiladora do bairro,
o homem das castanhas,
a senhora que faz rissóis para conseguir pagar a conta da electricidade,
a enfermeira explorada do hospital,
o veterinário da rua,
o homem que vende alho para pagar a fisioterapia,
a dona da farmácia onde não há paracetamol,
o vendedor de cautelas que ninguém compra,
o senhor da tabacaria,
o tipo da perna com gangrena,
a assistente social da Misericórdia,
o director da escola em ruína,
o deputado do PSD que votou contra,
o jornalista precário,
o escritor sem editor,
o actor intermitente,
o doente canceroso,
o pensionista revoltado,
o bispo que não se cala,
o padre da minha paróquia,
o músico sem trabalho,
o historiador que conhece a História,
o médico extenuado da urgência,
o bombeiro que quase morreu no Verão passado,
a senhora do lugar,
a vendedora do mercado,
o deficiente sem apoios,
a ama do prédio do lado,
o antigo combatente,
o militar indignado,
o editor de livros-lixo,
o repositor de novidades da livraria,
o poeta que não quer publicar,
o encenador sem trabalho,
o desempregado com medo de perder a casa,
o emigrante que nunca mais quer voltar,
a hospedeira no Dubai por não haver alternativa,
o pequeno empresário que teve de hipotecar a casa,
o rapaz dos computadores,
o alfarrabista que perdeu a loja,
o dono do circo insolvente,
o sapateiro liberal,
a psicóloga low cost,
o revisor oficial de contas,
o designer gráfico à tarefa,
o arquitecto que serve cafés,
o comentador político de direita,
o cronista de esquerda,
o cinéfilo que ia ao cinema King,
a secretária do administrador público corrupto,
o operador turístico,
o homem dos jornais,
a senhora da padaria que passa fome,
o vendedor de carros,
a costureira unipessoal,
o dono da lavandaria,
o empregado da loja de animais,
a bailarina sem companhia,
a senhora da limpeza,
o barão do PSD,
a funcionária da repartição pública,
o ferroviário,
o ex-votante no partido dos contribuintes
o empreiteiro,
o advogado de negócios,
o estagiário dele não-remunerado,
o agricultor,
o comediante da tevê,
o amolador,
o antiquário sem clientes,
a antropóloga que trabalha no call center,
o assessor do ministro,
o atleta,
o barbeiro,
o compositor,
o fadista de muitos sucessos,
a florista em frente ao cemitério,
o fotojornalista que faz casamentos,
o homem dos barcos,
o geógrafo que trabalha no hostel,
o general aposentado,
o ilusionista que perdeu as ilusões,
o jardineiro do palácio,
aqueles seis juízes do Constitucional,
o homem que pede comida para os filhos à entrada do Pingo Doce,
o homem do lixo que trabalha sem luvas,
o maestro que perdeu a orquestra,
o merceeiro com dívidas ao fisco,
a nutricionista grisalho,
o operário da fábrica que foi deslocalizada,
o ourives,
o pescador perseguido,
o pasteleiro,
o pintor que não queria ser cenógrafo,
o realizador de cinema,
o sexólogo da rádio,
o táxista,
o talhante,
o tradutor,
o tatuador,
o vidraceiro,
o viticultor,
o empregado da loja de ferragens,
o antigo presidente da república,
e ainda, e que me lembre assim de repente,
o homem-bala,
estão contra o Orçamento de Estado para 2014 que foi hoje aprovado pela maioria no Governo.

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