JB+C
Jean-Baptiste Darrasse (à direita),
com o filho Clément, também fotógrafo

Desapareceu Jean-Baptiste Darrasse (1944-2013), fotógrafo de quem eu gostava tanto. Desapareceu numa floresta, perdido entre outras árvores – assim vejo um homem vertical: como uma árvore. Depois de vários dias de buscas, de que a população do lugar em que vivia participou activamente (também eles gostavam tanto dele, e jamais esquecerão os retratos que deles fez, um a um, o fotógrafo da aldeia que há tempos chamou a si o ofício eterno do retratista), foi encontrado, ainda vivo, por um caçador. Nunca mais vou passear com ele por Lisboa.

Fotógrafo formado na era analógica, Jean-Baptiste Darrasse não renegava os processos digitais que transformaram a fotografia profissional noutra coisa. Mas a «fotografia-zapping», como chamava àquilo a que hoje se dedicam incontáveis fotógrafos, representava para ele uma desqualificação do fotógrafo enquanto autor. Ligado à fotografia desde a infância, começou por fazer imagens em sépia, sobrepondo negativos (feitos com uma máquina de 6X9 oferecida pelo pai) sobre papel, que o rapaz punha primeiro ao sol, e depois dentro de tinas de água com sal grosso. Foi também em criança que fabricou um ampliador com uma garrafa de água de Evian.

Um dia, a sogra da sua irmã abriu uma loja onde as pessoas iam buscar as fotografias tiradas por um fotógrafo na praia. Teria ele cerca de quinze anos quando o argelino que trabalhava no laboratório dessa loja desapareceu repentinamente, para ir integrar a legião árabe contra os franceses – e foi assim que Jean-Baptiste arranjou o seu primeiro emprego, a processar as fotografias de pessoas bronzeadas. Mais tarde, na sequência de um fracasso escolar, o pai perguntou-lhe se queria dedicar-se à fotografia e arranjou-lhe um estágio com um fotógrafo parisiense (o autor das fotografias de baptismo do famoso navio «France») que trabalhava, entre outros, para a companhia francesa de caminhos-de-ferro (SNCF) e para a Compagnie Générale Transatlantique.

Jean-Baptiste Darrasse começou então a fazer imagens das paisagens de França, das arenas de Nîmes, das muralhas de Cahors, fotografias que eram usadas no interior das carruagens como forma de promover o turismo. Datam também desses tempos em que entrava às oito da manhã no laboratório e saía às nove da noite, as suas fotografias de alguns dos ícones da navegação nacional francesa.

Depois de ter frequentado duas escolas de fotografia, estagiou numa agência de publicidade. Brevemente instalado por sua conta em Paris, acabaria por regressar à Touraine, onde abriu o estúdio de fotografia que viria a ser o seu mundo durante quinze anos – a fazer catálogos publicitários, imagens em grande formato de todo o tipo de produtos, que Jean-Baptiste Darrasse se encarregava de iluminar e de pôr em situação: sofás de luxo do Kuwait, bouquets de flores, tractores agrícolas, camiões da Renault, iogurtes Danone, etc. Reportagens também, que o levaram à Bulgária, por exemplo, para fotografar a estação de depuração de águas de Sófia, construída por um seu cliente. Mas seria na fotografia de arquitectura que Jean-Baptiste Darrasse daria cartas inéditas e espantosas.

A fotografia a que predominantemente se dedicava escapa às definições catalogadoras que, doutro modo, a circunscreveriam a uma ou a outra das áreas de que se ocupava. Era uma fotografia que dependia simultaneamente de procedimentos científicos e criativos, fazendo dele um arqueólogo e um geómetra: alguém dedicado a encontrar vestígios e a obter as linhas ópticas precisas que permitiam devolvê-los ao nosso horizonte visual. Fotografia específica, que nasceu da circunstância de lhe ter um dia sido pedido por um arquitecto, no início dos anos 80, o levantamento da fachada de uma casa que comprou para restaurar. Foi nesse momento que Jean-Baptiste Darrase inventou o processo que esteve na génese do seu trabalho de reinvenção da fotografia.

Arquitectos e geómetras interessaram-se pelo que fazia, nunca tinham visto nada assim, e isso levou-o para a fotografia de arquitectura, área em que se especializou, passando a fotografar segundo um processo que permite a reedificação de estruturas a partir de imagens fotográficas. O procedimento possibilita a realização de imagens por deslizamento da objectiva. O plano fotográfico mantém-se paralelo ao plano do objecto fotografado, evitando as deformações resultantes da perspectiva. Jean-Baptiste compreendeu, por tentativa e erro, que a única forma de capturar fotograficamente a totalidade de uma superfície (de uma fachada, por exemplo) era encontrando o eixo rigorosamente perpendicular ao objecto, o que explica que tenha começado a usar o único instrumento que lhe permitia identificá-lo: a bússola.

Quando não havia profundidade suficiente, o fotógrafo fazia várias tentativas, posteriormente religadas entre si na montagem das impressões. Jean-Baptiste Darrasse trabalhava com uma escala pré-definida. Bastava, assim, medir uma janela, por exemplo, e multiplicar o resultado pelo quociente da escala pretendida, obtendo-se a dimensão rigorosa. O trabalho sobre edifícios antigos, a maioria velhos de vários séculos, requeria semanas de trabalho. Uma imagem fazia-se de múltiplas sessões fotográficas, redefinindo os espaços e os tempos particulares, e alargando o seu contexto. Nesse sentido, poderíamos dividir os fotógrafos em duas classes distintas: aqueles cujas imagens estariam no fim de uma cadeia e aqueles cujo trabalho consiste na elaboração de imagens-instrumentos, de imagens-ligamentos.

Jean-Baptiste Darrasse fotografou todos os edifícios históricos da região onde vivia. As suas imagens pouparam aos institutos de conservação meses de levantamentos e permitiram orçamentar a partir do trabalho do fotógrafo. Imagens do interior de edificações medievas e das suas estruturas de sustentação, por exemplo, tornaram-se desse modo possíveis de obter, permitindo aos técnicos a medição rigorosa dos monumentos com projectos de intervenção futura. Razão pela qual não será ficção afirmar que Jean-Baptiste Darrasse deu à fotografia uma nova função: a de capturar memórias materiais que doutro modo escapariam aos projectos de conservação patrimonial.

Anúncios