policia_21nov2013
© Nuno Botelho [reportagem da manifestação ao minuto no Expresso]

Subiram os degraus da escadaria do Parlamento e, já lá em cima, muito ufanos, tirando fotografias para a posteridade ao lado das forças de choque (que o Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, mandou recuar para evitar o pior), avisaram: para a próxima trazemos os militares connosco. Vitória muito mais do que simbólica, a manifestação de ontem – cerca de 10 mil polícias zangados com o Governo – demonstra a que ponto a união faz a força. “Polícia unida jamais será vencida!”, gritaram vitoriosos às portas da Assembleia da República, cientes de terem dado um passo importante para a resolução dos problemas da classe.

Um ano antes, em 14 de Novembro de 2012, não houve vitórias para os manifestantes, apenas repressão e violência indiscriminada sobre a população, e a imagem de velhos e mulheres a sangrar, e de miúdos a serem perseguidos por Lisboa durante horas, por polícias à solta cheios de cães e de raiva, ensombrou ontem a memória de muitos.

Mas a vitória dos polícias, na transgressão do que não era suposto vindo de quem jurou fidelidade à lei e à ordem, tem o sabor perigoso das consequências da austeridade cega que este Governo fez abater sobre as famílias portuguesas. Pode ser que os polícias resolvam alguns dos seus problemas, que ontem tenham ganho uma nova margem de negociação para os cortes que o Orçamento destina também à sua profissão, mas o problema de fundo permanece, e a vitória dos polícias (cujas famílias, de não-polícias, se debatem com os problemas de sobrevivência de todas as outras) abriu caminho para o que só os governantes não vêem, ou não querem ver, apesar dos avisos de tantos. O que nos diz um polícia que ao partir para a manifestação anuncia aos filhos que vai disposto a morrer se preciso? Pois.

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