hannah_arendt

Voltámos a eles, aos tempos sombrios a que a Humanidade regressa de tanto em tanto tempo, comprovadamente incapaz de aprender com as sombras pretéritas, dir-se-ia empenhada nesse eterno retorno às trevas como a uma fatalmente necessária descida aos infernos. «Nem segredo nem mistério», como disse Hannah Arendt do que começou a ser visível muito antes dos anos 30 do século passado, poucos saíram da obscura inconsciência, levados pelos «discursos e pelo palavreado de quase todos os representantes oficiais que, ininterruptamente e com as mais engenhosas variantes, iam arranjando explicações para todos os factos desagradáveis e para todas as preocupações justificadas».

Voltámos portanto à obscuridade em que germina o sofrimento, mas também a compaixão e a fraternidade «entre os reprimidos e perseguidos, os explorados e humilhados, a quem o século XVIII chamava desgraçados (…), e o século XIX miseráveis», e contra os quais age a crueldade dos que se safam. Para sobrevivermos à visão da tragédia, alguns de nós resistem dentro da cabeça. Mas há que distinguir entre resistir acordado e fazê-lo pelo sono dessa estranha letargia que na Alemanha do século XX ficou conhecida como «emigração interior»: «Significou, por um lado, que havia pessoas na Alemanha que se comportavam como se já não pertencessem ao país, que se sentiam como emigrantes; e, por outro lado, que essas pessoas não emigram realmente, antes se refugiam num domínio interior (…)».

Escrevendo nos anos 60, Arendt afirmou que «seria um erro pensar-se que esta forma de exílio, uma fuga do mundo para um domínio interior, só existiu na Alemanha, como seria um erro imaginar que tal emigração chegou ao fim com o fim do Terceiro Reich.» À imagem do que anteriormente fizeram todos aqueles para quem a realidade se tornou intolerável, e designadamente os alemães que escolheram o esquecimento e se comportaram «como se os anos de 1933 a 1945 nunca tivessem existido», muitos emigram hoje para dentro de si, para longe da dor a nascer de novo (Goethe), e sobretudo para longe dos outros, desse modo reproduzindo uma recusa de diálogo com a História e com a humanidade do outro (igual a nós, ou parecido) que está na raiz mesma do incessante e trágico movimento circular – essa dança de retorno aos tempos sombrios de que falava Brecht e que Arendt tomou emprestados para o seu Homens em tempos sombrios. E no entanto, e ainda socorrendo-me do pensamento de Hannah Arendt, «somos livres de mudar o mundo para começar nele algo novo».

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