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Não li ainda o  livro que Mário Soares acabou de lançar em Paris, mas no site da editora Éditions de la Différence pode ser lido sobre ele:  «A crise generalizada em que as instituições da União Europeia actualmente mergulham os diferentes países da Europa – e particularmente os países do sul – confere um particular interesse ao julgamento e à análise de um homem que combateu a ditadura e que ocupou as mais altas funções no seu país. Ao sabor de diversas contribuições suas para a imprensa portuguesa, Mário Soares aborda todas as questões que fizeram a actualidade destes últimos dois anos, em Portugal e no Mundo: a Primavera árabe, a crise, a democracia e os partidos, a União Europeia, o papel da Esquerda, a indispensável transformação política, a zona euro, etc.»

Trata-se portanto de uma compilação, traduzida para Francês, das crónicas que Soares publicou entre nós. Nada mais haveria a assinalar se não fosse justamente a circunstância de o livro ter sido publicado em língua francesa, para os francófonos lerem. Um livro que está a ser distribuído no circuito comercial livreiro francês, chegando aos leitores desse fundamental país – fundamental para Portugal, mas sobretudo fundamental para a Europa, pois já não se aguenta (já não aguenta a maioria dos portugueses em Portugal) que também em França o País português debaixo da pata da austeridade criminosa continue a ser visto como o bom aluno da troika, esse antigo aluno preguiçoso e perdulário entretanto emendado pela mão firme do reformatório franco-alemão.

Curioso será verificar que numa nota de imprensa publicada na edição de 3 de Outubro passado do Nouvel Observateur o autor de Portugal, état d’urgence tenha sido definido como «uma grande figura da social-democracia». Mas essa é, claro, outra conversa, e muito embora os assuntos se toquem e Soares esteja em certa medida (na pequena medida que o seu estatuto e a sua idade permitem) a colher o que semeou, ou ajudou a semear, ou isso que agora três gerações de portugueses experimentam. Mas entre ficar calado a amargurar (ou resmungar para um pequeno universo de leitores como é o português) e agir, Soares escolheu agir, e há nisso (como noutras intervenções recentes de Soares) uma grandeza política e uma pulsão redentora construtiva e resiliente a que escassos pecadores se abalançam por estes dias.

Bom mesmo seria que Soares tratasse o quanto antes da edição alemã do seu livro, para que também os alemães pudessem ir sabendo qualquer coisa sobre o que se passa em Portugal, e não apenas que são eles que estão a financiar o nosso Estado, como se isso fosse a verdade e não estivessem também a Grécia, a Espanha e a Irlanda a sofrer (e a palavra é sofrer) superlativamente as consequências de uma desregulação sem precedentes do sistema financeiro global. Um desnorte movido por interesses sem fronteiras de qualquer natureza e favorecido por uma política monetária a que a União Europeia terá forçosamente de pôr cobro, se quiser manter vivo esse projecto nascido de um  ideal civilizado, humanista e solidário que os tempos sombrios (que também em França escurecem os dias de muitos) demonstram totalmente corrompido.

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