Christiane-Taubira.-Un-conseiller-tres-special

França tem uma ministra da Justiça que é negra: a economista e ex-deputada do Parlamento Europeu Christiane Taubira (n. 1952), nascida em Caiena, na Guiana Francesa, um departamento ultramarino de França situado no norte da América do Sul. Duas leis importantes do Estado de Direito francês levam o seu nome: a Lei Taubira, de 2001, que reconheceu para memória futura o crime contra a humanidade que, na França seiscentista e épocas posteriores, constituíram os tráficos negreiros e a escravatura; e a lei do casamento homossexual, promulgada já este ano por François Hollande.

Considerada “um electrão livre” (assim mesmo chamada pelas forças político-partidárias francesas), é conhecida pela sua independência, e isto pelo menos desde 2004, quando pessoalmente se opôs à lei que proibiu os signos religiosos na escola pública e laica francesa, tendo também apelado ao Não aquando do referendo que em 2005 perguntou aos franceses se queriam uma Constituição Europeia. Para trás ficariam também muitos anos de activismo em defesa dos direitos humanos e da autonomia das regiões ultramarinas francesas – ainda hoje assim designadas.

Em Maio de 2013, Taubira lembrou que o confisco colonial das terras que a História fez territórios franceses ainda não foi revertido, e defendeu a necessidade de devolver aos descendentes dos antigos escravos as terras sobre as quais continuam sem direito de propriedade. Parece mentira que em 2013 ainda seja preciso dizer estas coisas, que as forças políticas que têm governado em França não tenham ainda resolvido tais ressarcimentos. Tal como também parece mentira que em pleno século XXI ainda haja tanto racismo: Christiane Taubira é hoje mais do que nunca alvo de ataques racistas, de injúrias abjectas que frequentemente transformam as suas aparições públicas em acontecimentos mediáticos de enorme significado político: neles se avista o inimigo interior que sobrevive em tantos espíritos humanos e sobre os quais a civilização humanista e o pensamento republicano parecem não ter jamais agido.

Como é possível que na Europa do século XXI haja crianças cujos pais e outros educadores instruíram para o racismo? No mês passado, algumas dessas crianças chamaram macaca a Taubira, e mandaram-na beber Banania (uma espécie de Nesquick francês). Um designer gráfico francês filmou com um telemóvel os insultos proferidos por essas crianças aquando da passagem da ministra pela cidade de Angers: um grupo de crianças agitou, passando de mão em mão, uma casca de banana diante da ministra, e isto perante uma total ausência de reacção por parte dos adultos presentes. Tendo publicado o vídeo na Internet, o designer foi alvo de ataques e de ameaças à sua integridade física. No Facebook do partido de extrema-direita Front National fotomontagens supostamente divertidas escarnecem de modo vil e primário sobre as origens símias da governante. Como é possível que o riso do racismo divirta tantos? Não fomos porventura todos macacos antes de sermos homens? Como é possível que o desrespeito pela diferença tenha tomado essas formas? A que fraternidade podemos aspirar? A que Europa?

A edição de hoje do jornal Libération publica uma grande entrevista com Christiane Taubira: «Esses ataques racistas visam o coração da própria República. É a coesão social e a História de uma nação que são postas em causa. Esses ataques questionam todas as pessoas e legitimam que muitas meninas negras possam ser tratadas de macacas durante o recreio.» E ninguém faz nada, em França nenhuma voz se fez ouvir, ninguém quer saber. À rédea solta que os decisores políticos franceses e europeus dão à escalada dos ódios contra a diferença e das supremacias racistas, junta-se a indiferença de todos os que aceitam passivamente que a Europa se construa dessa forma.

Os acontecimentos visando portugueses em Moçambique e a tensão entre Portugal e Angola escondem o mesmo problema, numa sua outra versão, que muitos desqualificam, desvalorizando o que nenhum pequeno grau torna menos grave na escalada da deriva racista pós-colonial, e que afecta ex-colonos e ex-colonizados. Mas, tal como em França, ninguém quer saber: as relações entre Portugal e Angola apenas têm gerado notícias relativas à má diplomacia, aos tiros no pé do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, e a maior parte das vozes de opinião parece unicamente preocupada com o possível desinvestimento angolano em Portugal. Nenhum debate sério, consequente e necessário surgiu ainda sobre as formas da mente pós-colonial que determinam muito do que começa agora a acontecer. O passado refulge em todo o seu esplendor de inexpugnáveis e complexos laços históricos. Uma relação em que a fraternidade tem servido  essencialmente para usar nos discursos oficiais. Não chega. Édouard Glissant, pensador-poeta originário da Martinica francesa, dedicou a sua vida a realizar a poética desta relação. Vale a pena lê-lo.

Mais próximo da nossa realidade pós-colonial está Yonamine, artista angolano nascido em 1975 cuja obra plástica tem abordado sem panos quentes a representação do colonialismo português na mente angolana, expondo as verdades inconvenientes e pouco suaves de que ninguém fala. «Yonamine é oriundo de um país rasurado, Angola. Um país em que a história em vez de funcionar como um palimpsesto, como um texto sobre o qual se iam produzindo múltiplas escritas que iam deixando transparecer a escrita anterior, funcionou quase sempre como um processo de apagamento. A história foi sendo rasurada em nome de um interesse maior. O passado colonial português, que Yonamine evoca com subtil ironia no título da exposição e na série dos maços de tabaco “Português Suave”, foi rasurado pela descolonização precipitada, que por sua vez foi rasurada pela guerra, que é agora rasurada pela paz. Este processo de sucessivas lavagens foi um processo abrasivo, como se o corpo (do país) fosse esfregado com palha-de-aço. (…) A esta ideia de rasura associa-se assim uma ideia de acumulação, mas não será difícil concebermos que estamos perante a outra face da mesma moeda. A acumulação é uma forma de rasura, porque se organiza em torno de uma lógica de sobreposição e apagamento da camada anterior. (…)» Paulo Cunha e Silva no seu texto de apresentação da exposição Tuga Suave (2008)

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