Daqui a dias estreia a peça Partir, que escrevi uma vez mais a convite do encenador Francis Seleck para o Teatro de Areia, um projecto teatral almadense que este ano cumpre dez anos a existir na corda bamba dos cada vez mais escassos apoios à Cultura. Um projecto de gente acordada para o teatro em Almada, a frequentar acções de formação teatral expressamente concebidas para tirar os mais novos de casa, do sofá de adormecer a consciência com vista para o televisor do entretenimento consumista. Formação para a humanidade, no final de contas, numa Era em que o grosso da Humanidade vem ao Mundo para o comércio, para realizar os desígnios comerciais para que o deus dos mercados tem vindo há décadas a formatá-la, varrendo para as bermas e aí abandonando os que não têm dinheiro para comprar ou talento para vender.

A encenação de Partir faz justiça a essa razão de ser de um teatro que escolhe encenar a verdade (e não disse a quotidianidade) e a inquietação de muitos, desse modo sendo o espelho primitivo de uma comunidade humana em sofrimento. Este ano temos uma criação sonoplástica expressamente concebida para o espectáculo – um luxo de engenho e arte ao serviço da evocação de um lugar mental comum. Espaço sonoro, chamámos-lhe.

Disse já aos jornalistas que me perguntaram sobre as razões e processos do texto que foi doloroso escrevê-lo, sim, é de dor que se trata, da dor de escrever sobre o que se passa hoje, da dor de tirar de dentro da memória emotiva as palavras que melhor descrevem o que tantos outros sentem também. Não há sentimentalismo à portuguesa, não há choraminguice, há só dor, e o saco-cheio da revolta, o nosso corpo transtornado, o espírito a querer ceder, o medo paradoxal de que isso aconteça, e visões do Inferno, de um Inferno que pudesse pôr cobro aos infernos quotidianos da precariedade e da sobrevivência: aquela coisa suicida de que falou Unamuno num seu texto sobre os portugueses – essa mesma descrença, a falta de alegria, um desejo de fim. Mas também o contraponto do mais irrealista idealismo de quem sonha ficar ao invés de partir para enfim construir um país.

Não é teatro realista, disse aos jornalistas, e no entanto nada podia ser mais real do que essas palavras que escrevi durante a canícula da sobrevivência ao último Verão português. E nessa medida é um teatro documental, e esse texto, essa peça, um documento.

Depois da estreia daqui a dias não há qualquer expectativa de que a peça venha a ser representada mais vez alguma: não há dinheiro para a produzir noutras salas, não há salas embora haja muitas vazias, não há bilheteiras para ninguém porque não há públicos, mas sobretudo não há vontades, e repete-se assim a experiência de anos anteriores em que colaborei com o Teatro de Areia: uma equipa de gente, profissionais uns e amadores outros, que trabalha durante meses para que um espectáculo de teatro aconteça uma única vez. Como se não fosse teatro de texto mas performance: uma aparição.

Um sonho cuja efemeridade absurda a edição do texto em livro poderia parcialmente compensar – mas também não há dinheiro, nem meios, nem vontades. A Mostra limita-se a mostrar umas coisas novas, umas experiências, uns ‘teatros’ que mais ninguém verá, de que mais ninguém terá notícias, e cada ano acrescenta-se a um esquecimento denso de várias camadas. Isto é uma política cultural? De modo nenhum.

E nas palavras do Secretário de Estado da Cultura a propósito do próximo programa da União Europeia para 2014-2020 ecoam os objectivos de apagamento das identidades culturais dos povos e de negação da fruição artística às populações: «O texto aprovado pela Comissão Europeia para projectar a Europa até 2020 não menciona uma única vez a palavra Cultura. Menciona sim a Criatividade e a Inovação, o que se afasta (…) [da] valorização da cidadania, [da] literacia, [da] identidade cultural, [da] coesão cultural das populações, [do] aumento das redes culturais e [da] aproximação das populações às artes e à cultura contemporânea. A criatividade, nesse contexto, não diz respeito à valorização humana mas às dinâmicas económicas (…)» Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura, entrevistado para o jornal da Artemrede – teatros associados.

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