education_not_business

As Novas Oportunidades e as obras da Parque Escolar ficarão para a História do investimento público em Educação como dois tristes momentos da governação socialista. As Novas Oportunidades serviram para certificar o que não tinha maneira, na linha, aliás, dos múltiplos programas de formação em coisa nenhuma financiados com fundos europeus, e de cujos usos corrompidos teremos certamente notícias durante os próximos anos. Não havia oportunidades para ninguém, era tudo uma ilusão, levada por um eufemismo discursivo que colhe: uma mão-cheia de nada para os incautos que acalentaram o sonho de vir a ser alguém (como se não fossem já alguém) por via de uma certificação sem correspondência com quaisquer competências – ah, essa palavra – técnicas, científicas, artísticas ou literárias.

A Parque Escolar foi uma PPP irresponsável que, à boleia da necessidade de intervir em algumas escolas degradadas, criou falsas necessidades de requalificação em centenas de equipamentos escolares, desviando milhares de euros para uma questão acessória, e destruindo pela mesma ocasião (e literalmente) as pré-existências arquitectónicas e identitárias de alguns liceus históricos, em favor de uma lamentável uniformização das escolas – mas sobretudo em detrimento do que verdadeiramente importa realizar em matéria de Educação em Portugal: elevar o nível cultural dos cidadãos, fomentar, por via do investimento nos programas de ensino e na formação pedagógica dos professores, o desenvolvimento do espírito e da curiosidade dos alunos, designadamente educando-os para a sensibilidade (que é coisa própria da humanidade, apesar dos tempos bárbaros que a pretendem negar), desse modo favorecendo uma mobilidade social que a maior parte dos contextos familiares portugueses de modo algum pode assegurar. Um investimento que precisa de horizontes mais largos do que aqueles dos ciclos políticos, cujos desprogramados programas tradicionalmente se dedicam a destruir o que foi feito pelos anteriores governantes, para erguer depressa e mal qualquer coisa distinta. 

Todos esses desinvestimentos na Educação têm vindo a cumprir, paulatinamente, um obscuro programa de inviabilização do único caminho de desenvolvimento certo para um país com uma economia frágil e um subdesenvolvimento tenaz que deriva da sua própria História.

Agora que a maior parte dos jovens com formação superior emigrou já, ficámos com os restantes: os mais pobres, os das Novas Oportunidades, os que aguentam trabalhar nos call-centers das empresas multinacionais e nas caixas dos supermercados, os que precisam de alimentar os pais ou os filhos que já tiveram, os que não compreendem (apesar de também eles serem bombas de revolta latente) que a escravidão destruirá o anseio que foram, mesmo se obnubilado pelo consumo que os entreteve.

O que Nuno Crato acabou de inventar e Paulo Portas de anunciar ontem, a pretexto de um “Guião” (hoje renomeado “Proposta aberta”) para uma reforma do Estado que, pessoalmente, como portuguesa e como escritora de textos longos me envergonha (pelo que revela, a displicência, o mau Português acordizado embora só às vezes, a ausência de visão política, o desconhecimento da realidade da maioria, da História, da Sociedade humana sobre a qual pretende agir), é a intenção claríssima de mais do mesmo veneno: desinvestimento público na Educação de um país que este Governo trata como uma empresa que tivesse sido criada em 2011. Mas essa “empresa” (ainda) tem gente lá dentro, e não são clientes.

Anúncios