É num supermercado Pingo Doce. O rapaz, pequenino como o povo diz dos velhacos coitado, o seu corpo personificando o soldado ao serviço dos interesses dos tão poucos cujo enriquecimento imparável empobrece os outros todos, gerando e perpetuando a miséria, esse rapaz conta as notas diante de nós. Conta-as durante um longo momento, e vejo nos olhos de todos a indignação. A eternidade do processo enerva-nos, o tempo que o rapaz demora naquilo incomoda-nos, indigna-nos que o dispositivo de segurança de um sistema informático interrompa as nossas vidas, que destrate os clientes que somos, revolta-nos que os processos automáticos que garantem, sem riscos de extravios ou outros perigos, a acumulação de riqueza da família do senhor Alexandre Soares dos Santos passe à nossa frente, ele que paga os seus impostos lá onde são menos precisos do que aqui, sem que contudo se iniba de regularmente se chegar à frente para mandar postas de pescada morais sobre o que é o patriotismo. E vejo no rapaz, no seu olhar medroso enfrentando o nosso olhar zangado, a urgência em resolver aquilo o mais depressa possível, enquanto pede desculpa pelo que não tem culpa, ele que deve ganhar num mês bastante menos do que a soma daquelas notas todas reunidas numa única caixa de supermercado no decurso de umas poucas horas, e que não deve ter maneira de pagar a universidade, ou os estudos de aprender um ofício em que não tenha de passar os domingos a contar o dinheiro dos outros.

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