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© Nuno Saldanha

Há uns quinze anos ou coisa que o valha, a propósito das pontes sobre o Tejo (a Vasco da Gama acabara de ser inaugurada), escrevi um texto defendendo que os nomes das grandes obras de Estado não deveriam mudar de nome com a mudança dos regimes. Fui muito atacada, e o editor fez questão de se livrar de toda e qualquer responsabilidade relativamente ao que escrevi, publicando uma caixa de texto dizendo isso mesmo. Defendia eu que não se deveria ter renomeado a ponte anteriormente designada por Ponte Salazar, não para celebrar a obra do ditador, Deus me livre, mas para que a memória de quem foi e do que fez ao povo português durante perto de 50 anos não fosse assim apagada, por renomeação decretada por impulso revolucionário, e pudesse dessa forma sobreviver ao esquecimento.

Continuo a pensar que estava certa, embora hoje não me passasse pela cabeça assinar semelhante texto, porque tenho sobre a memória histórica dos portugueses uma outra ideia, que deriva do que aprendi sobre a sociedade portuguesa. Sei por exemplo que muitos jovens (a maioria?) não sabe o que aconteceu em Abril de 1974, o que é evidentemente muito grave: um problema de Educação, que tem que ver com o ensino da História – mas não só. Há nos portugueses uma vocação constitutiva para o esquecimento, e embora não esqueça que esquecer é esconder o que se lembra, a historiografia contemporânea estuda isto, e sabe que é no esquecimento (na memória emotiva silenciada) que está muito daquilo que importa investigar.

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