Antigamente viviam nas praças, os avós levavam lá os netos: vamos dar de comer aos pombinhos. Eram bons pássaros, seres pacíficos como não havia outros, que gostavam das migalhas do pãozinho duro, eram esses pássaros amiguinhos das crianças e dos avós. Por vezes surgia um pombo branco e era a estrela – a estrela da paz. Quando esvoaçava havia qualquer coisa que acontecia, um anjo passava a sussurrar um pequeno poema, os olhos das crianças brilhavam, Deus (a poesia, o mistério, a beleza, a bondade, que sei eu) andava por ali.
A maior parte eram pardos, cor de sarjeta suja, de genes cruzados pela força da fornicação sem rédeas (aquele som deles naquilo).
Não sei se eram realmente menos, mas hoje parecem demais, e vejo neles a nossa decadência, nos momentos mais negros o nosso destino, por vezes, quando o horror é demasiado, vejo o nosso presente, o nosso futuro: somos iguais.

E hoje vejo-os em todo o lado, e nas praças também, claro. Estão em todas as ruas, dentro das lojas, nas pastelarias, nos hospitais (!), nas estações de comboios, na cafetaria de apoio ao terminal dos autocarros, e também lá em cima, no céu de todos os caminhos da urbanidade, a esvoaçar em bandos, e por vezes fazem voos picados, e tenho de cruzar os meus braços-elmo, não vá algum deles aterrar-me num olho.
Gostam do nosso sol, que também é deles, e das reentrâncias e abandonos da nossa arquitectura, que usam para nidificar. Parecem nós a morar nas casas velhas que ninguém restaura.

Obrigadas a controlar as populações desses outros filhos de Deus, as câmaras municipais aplicam medidas destinadas a manter um número aceitável de indivíduos. No entanto, não basta dar-lhes milho contraceptivo para que se reproduzam menos. É preciso explicar (explicar muito bem, garantindo que se foi compreendido) que quanto mais comida se lhes der, menos contraceptivo tomarão. É que quando passam os funcionários camarários incumbidos de espalhar esse milho, já os pombos comeram migalhas de pãozinho duro mais do que a conta – tarefa assegurada pela população de humanos que prossegue vendo nela a nobre e compassiva incumbência de quem ama esses símbolos da paz, e em que naturalmente não vê germes, nem doenças, nem a toxicidade ácida dos dejectos que dá cabo da pedra dos edifícios e dos monumentos.
Sim, eu sei que há outras razões: a solidão, o tédio, e também a memória da fome, e a desse outro tempo quando os netos eram crianças também. Os mais combativos mantém em surdina uma guerra contra os funcionários camarários do milho-pílula. Quem ainda tem um carro, passa cedinho e alimenta-os antes que cheguem os outros.

De há uns anos para cá, puseram-se picos, instalações eléctricas de dar choques, pedaços cortantes de vidro nos edifícios, nos monumentos e nos muros, e começaram a aparecer cada vez mais pombos estropiados. Impedidos de pousar lá no alto, passeiam-se cá por baixo, onde há sempre gente disposta a alimentá-los. Os mais deficientes são protegidos, têm direito a comer mais migalhas de pãozinho duro. E quanto mais comida se lhes dá, mais pombos gordinhos as câmaras enviarão para os fornos de matá-los vivos. A prática é de tal modo desumana que nenhuma câmara confessa fazê-lo. Dar de comer aos pombos mata-os, poderia ser o slogan de uma campanha televisiva. Tinha de passar em todos os canais, antes da novela da noite. Na RTP, que presta Serviço público, devia ser de graça.

Mas não. Ninguém explica nada, poderia ser mau para as eleições, o que iriam pensar os munícipes alimentadores de pombos (que são muitos eleitores) se soubessem que há milhares desses seres vivos que são regularmente enviados para os tais fornos de apagar um problema?

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