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E ao virar de uma esquina, entrando noutra sala da exposição, uma escultura em cera, vela, manequim e búzio, atingiu-me numa incerta parte do espírito: uma figura humana de escala pequena, um rapazinho muito hirto e afirmativo, com umas botinhas pretas, a sua cabeça-búzio (a sua cabeça-mar a marulhar) metaforizando a afirmação. Um rapazinho sexagenário (oh absurdo surreal), criado por Marcelino Vespeira (1925 – 2002) em 1952, inspirado por um discurso de Salazar sobre «os imperativos da nação».

«Um pequeno manequim, sem braços e com um búzio (metáfora do vento e da liberdade) como cabeça, nocturno e espectral, como figura saída de um sonho, com o tronco coberto de cera e sustentando um coto de vela sobre cada ombro – que, na exposição de 1952, estavam acesas, salientando o seu valor tocante e onírico – , apresenta-se no topo de uma pequena escada coberta por passadeira vermelho-escura. Vaga figura de convite para um lugar que só existe na imaginação do espectador, jogo poético instaurado com precisão sobre os amargos imperativos políticos do tempo, o Menino Imperativo coloca a dimensão do sonho, da surrealidade, acima da falta de imaginação do poder.»
Emília Ferreira, CAM

Sob o Signo de Amadeo – Um Século de Arte
Até 19 de Janeiro de 2014
Todos os espaços do CAM

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