Eu percebo, estás só (mas não estiveste sempre?), dizes que o som ajuda, é como se fossem pessoas, outras pessoas que estão contigo e te falam (mas não estão, e sabe-lo), dizes que te faz companhia, e vives portanto todos esses dias da tua vida a espreitar os horrores do Homem e do Mundo, que interesse pode haver nisso, fazendo tu parte da espécie que não se quer animal e da sociedade que vive longe da morte para te vender – quase sempre até demasiado tarde – a imortalidade? Como farás quando no teu espírito só houver horror, e nada te comover (ou então tudo), e nenhuma beleza te habitar já, mas apenas o medo e a misantropia a eito? Eu percebo, não aguentas o silêncio (por que não ouves música?), nem o vazio (por que não o enches, ao menos em parte, com o que os livros te dão – mas nem todos, terias de escolher muito bem). Receias, enfim, não ter assunto de conversa, perder o fio da actualidade, não saber o que se passa no Mundo. Eu percebo, mas pensa bem: serve-te de alguma coisa, saber isso? Por que te obstinas em encher de imagens horrorosas os teus pensamentos?

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