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Mudou o teatro em Portugal mudando-se para Almada. Encenou com a raiva terna (ou a ternura enraivecida, não sei bem) que o caracterizava. Tinha o génio dos génios. Foi a ser esse, assim, que construiu um projecto teatral único em Portugal.

Joaquim Benite (1943-2012) teve uma vida cheia e singular para um homem da sua geração. Jornalista, e depois crítico de teatro, trocaria a imprensa pelo teatro, escolhendo contribuir activamente para uma mudança no teatro feito em Portugal – que no início dos anos 70 era dominado pelos empresários da cena comercial de cariz prevalecentemente popular, de texto pobre e piada fácil. A obra que construiu ao longo de mais de quarenta anos testemunha um percurso sui generis, de um homem essencialmente afeiçoado à palavra, ao teatro de texto e de intervenção política.

Todo o teatro é político, lembrou várias vezes em entrevistas, devolvendo ao fazer teatral uma das suas funções na sociedade, ao arrepio da lógica do entretenimento que prevalecentemente continua a determinar práticas diversas. O teatro que apaixonava Joaquim Benite (sortilégio que nunca o abandonou) era esse teatro: o da literatura. Foi esse desejo de um outro teatro para os portugueses (para ele próprio, para os actores com quem trabalhava, e sobretudo para o público) que o levou a encenar textos de Shakespeare, Brecht, Thomas Bernhard, Lorca, Camus, Beckett, Marguerite Duras,etc.

No entanto, a sua acção transformadora afirmou-se também numa preocupação com tudo o que faz do teatro uma arte total, e de que é exemplo a grandeza inédita dos espaços cénicos que dirigiu, a desproporcionalidade voluntária entre o palco e a plateia, conferindo à cena desse teatro de arte a justa dimensão para o grande texto que sempre Joaquim Benite se propunha transformar no poema dramático que pudesse, num só ensejo, ser o espelho de todos – tocando também todos por igual na sua humanidade sensível.

A sua sensibilidade plástica levou-o a trabalhar com alguns dos mais notáveis artistas criadores das coisas materiais de que o teatro também é feito: os cenários, cujas formas e lugares numa cena de teatro Joaquim Benite procurou transformar em elementos poéticos constitutivos desse teatro – um teatro que ao longo da vida encenou com a raiva terna (ou a ternura enraivecida, não sei bem) que o caracterizava. Tinha o génio dos génios. Foi a ser esse, assim, que construiu um projecto teatral único em Portugal.

O seu desaparecimento deixa um lugar insubstituível na cena teatral do País e um lugar de honra na História do teatro português do pós-25 de Abril. Mas deixa também uma obra indelével em curso, de que fazem parte uma companhia de teatro (de artistas e técnicos formados por ele), um festival de teatro de dimensão internacional, e o vasto público que, como mais ninguém em Portugal, soube mobilizar para o teatro e demais artes do palco a que gostava de chamar «o fazer cultural».
© Sarah Adamopoulos

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