Nos anos 60 do século XX os portugueses partiam para fugir à miséria, mas ficavam com um pé na terra portuguesa, arreigados a ela por essa raiz que as saudades tornavam mais profunda – e todos queriam regressar logo que possível, se não antes na velhice, quando as reformas conquistadas noutros países pudessem financiar esses epílogos sob o sol da terra de que não abriam mão.

Agora cada vez mais partem com a ira de não voltar, enraivecidos com um país que como sempre os despeja e manda para o Mundo, mas agora com guia de marcha rápida e ordem para não voltar tão depressa. E é por isso que muitos dos que agora partem já não querem continuar a ser portugueses, dispostos a pertencer a qualquer outro povo e a não mais voltar a ser de Portugal.

E esses que agora partem não acalentam já regressos épicos, quando depois das fainas regressassem ao país-miragem que os expulsou – mãe indigna, sentem, eles que são a sua doença, gerados na visão hoje sem grandeza do país-ilusão, do lugar que afinal nunca existiu, do logro. Agora sabem, embora muitos deles venham mais à frente e pela certa a esquecê-lo, reinvestidos pela distância por uma crença ensolarada e batida pelo vento atlântico que lhes varre a memória.

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