Foi preciso chegar quase aos 48 anos para experimentar na pele a sensação de levar com um bastão da polícia. O rapaz que tinha idade para ser meu filho não quis saber dos meus cabelos brancos nem dos meus apelos à calma. Bem sei que a confusão foi muita e que os ânimos se exaltaram – alguns manifestantes (a maioria deles jovens muito revoltados, a existir sem horizontes de vida, e não agentes radicais treinados para a desordem, como se tem vindo a repetir) passaram todas as marcas, e o comportamento deles teria justificado um outro tipo de intervenção, para o qual a PSP de choque está de resto preparada. Bastaria apanhá-los, estavam todos ali à frente. Meia-dúzia de agentes à paisana infiltrados na multidão teriam feito a tarefa. Mas o plano era outro, e Passos Coelho foi claro: a intervenção da polícia teve por objectivo o de reprimir toda aquela gente, indiferenciadamente, como forma de dissuadir futuras participações em manifestações.

Foi esse grupo de miúdos revoltados (episodicamente acompanhados nisso por um ou outro graúdo) que se dedicou durante mais de uma hora a lançar pedras da calçada sobre os polícias – apesar dos muitos apelos dos manifestantes que pediam “Pedras não, invasão!”(*) Bem sei que a polícia tinha tentado comunicar minutos antes de carregar sobre a multidão, que não iria tolerar mais pedras e insultos. Não pudemos ouvi-los, pois as vaias sobrepuseram-se ao que tentavam dizer-nos. Sei que de repente estava a correr, tentando não cair e ser esmagada pela multidão em pânico. A PSP de choque perseguiu os manifestantes até perto da Calçada do Combro, obrigando a várias correrias consecutivas para escapar à ira dos polícias. As mulheres choravam, chocadas com a violência dos rapazes da PSP. Também chorei, também me chocou a violência indiscriminada sobre as pessoas, as bastonadas ao calhas, preferencialmente nas pernas para fazer cair as pessoas e bater-lhes mais, mas chocou-me sobretudo a visão da força repressiva que este Governo está disposto a usar para tentar calar o povo – para fazer com que aceite sem espernear as suas políticas inaceitáveis.

Já o escrevi antes: é a violência das medidas cegas que está a gerar este clima de desespero que sucede aos insultos que indignam Pedro Passos Coelho – um homem autoritário e indiferente à indignação do povo de que se diz representante. Não nos representa. Foi eleito por uma minoria de votantes (e como lamento que tenha sido a abstenção a elegê-lo Primeiro Ministro), governa graças a uma coligação de interesses em que a maioria dos portugueses não se revê, mas não abre mão do poder, não ouve os que constantemente o questionam, não pára um momento que seja para considerar os protestos que resultam da extrema violência das medidas que estão a destruir milhares de vidas em Portugal, parece não se questionar jamais, preferindo prosseguir orgulhosamente sozinho por esse caminho danado. A partir daqui tudo fica muito mais claro. Passos Coelho está disposto a governar pela força.

(*) É preciso perceber (ou pelo menos tentar) que quem vai a S. Bento manifestar-se fá-lo numa perspectiva que é grandemente simbólica. Como há muita revolta, é fácil alinhar na subida de tom. Perceber também que não são os polícias que a generalidade dos manifestantes visa. As manifestações têm uma razão de catarse – as pessoas precisam de estar juntas com quem sente a mesma indignação porque está a sofrer a mesma violência. Pois é, a violência tem muitas formas e a maior parte é legal.

[actualizado em 18.11.2012]

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