«Antes de sabermos o que fazer temos de perceber aquilo que se está a passar. Há muita gente que já percebeu mas muito pouca disposta a tirar disso as consequências necessárias. O capitalismo entrou na década de 1990 numa nova fase da sua globalização. Graças à queda dos sistemas que lhe eram alternativos e ao desenvolvimento das comunicações, o capitalismo global deixou definitivamente de precisar de estados e fronteiras. Hoje, a grande maioria dos governos em todo o mundo não são outra coisa senão agências locais dos grandes conglomerados capitalistas. Já não faz pleno sentido dizer palavras como Estados Unidos, Alemanha, China, União Europeia ou Portugal. Palavras como Goldman Sachs ou Monsanto, essas sim, significam alguma coisa de importante. Os grandes conglomerados não têm nacionalidade, nem localização geográfica. Raramente têm rostos humanos. Dominam os recursos energéticos, naturais e financeiros de quase todo o planeta. Estes conglomerados têm um plano para a Europa do sul que podem a qualquer
momento estender a outros países europeus: tornar-nos pobres.

A pobreza não é uma consequência de políticas erradas. É o resultado de políticas deliberadas. Tornar-nos pobres significa tornar os nossos territórios apetecíveis para o investimento que se costuma dizer estrangeiro mas não é estrangeiro, é global. Deste modo, os conglomerados precisam de mão-de-obra barata, terra barata, empresas baratas. Até os capitalistas portugueses mais inteligentes já perceberam o essencial: também eles são um alvo a abater. Os bancos portugueses, as grandes empresas portuguesas são muito pequenos no quadro global. Serão arruinados e absorvidos. É por isso que os grandes media e os seus donos estão contra este governo de servidores dos conglomerados globais, porque os patrões estão contra este governo ou tentam desesperadamente aproveitar as migalhas que caírem da mesa da ruína do país. É pena, e sinal de profunda alienação, que a esquerda parlamentar se recuse a ver a evidência: o inimigo dos trabalhadores e da chamada classe média não são os capitalistas portugueses. É o capitalismo global.

O que há a fazer é portanto muito claro. Primeiro, uma revolução, seja de que tipo for, que faça cair o regime. Depois, denunciar a dívida e sair da União Europeia que tem revelado ser a armadilha mortal em que os conglomerados mergulharam a Europa. Finalmente, aguentar dez anos ou mais de vida dura, mais dura do que aquela que já estamos a ter, mas não para pagar dívidas eternas: para aliar a nossa economia com a dos países do Mediterrâneo e outros, tornar-nos autónomos, salvar a nossa terra, os nossos bancos e empresas, o nosso povo, no quadro de uma economia virada para a preservação dos recursos naturais e o abandono do sonho de progresso contínuo com que o capitalismo global enganou a maior parte de nós.»
PAULO VARELA GOMES no jornal de parede O Espelho

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