Desolação é a palavra. Não teria querido dizê-la, mas enfrentá-la é tudo o resta quando se olha com olhos de olhar em frente o que restou da devastação: desolação. As ruas da cidade, ainda ontem habitadas por gentes esperançosas, são agora caminhos desabitados quando ao cair da noite vislumbro, esparsos, vultos que correm com angustiada urgência em direcção aos abrigos, às casas onde nalguns casos ainda há quem os espere, e noutros apenas os fantasmas dos que foram quando ainda havia classe média, trabalho e protecção social.

Caminhando por entre as ruinas de edifícios outrora valiosas propriedades, faço contas ao desamparo dos aflitos com quem existo neste tempo sombrio – e até mesmo num país de muito sol, a que à nostalgia vejo suceder o desespero fúnebre. Desolação. E a exortação ao bom espírito a que me dedico com resistente insistência é a maneira que arranjo de lhes dizer que não se entreguem à morte, que se ergam dos escombros a que outros os reduziram e sejam essas pessoas para que nasceram, e não os animais destinados por esses outros ao abate. Desolação, sim.

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